Eu e a minha estúpida mania de fazer zapping no rádio porque só dão anúncios enquanto conduzo, enquanto olho para o retrovisor pra ver quantos carros tenho atrás de mim, baixo a pála do sol e vejo se não tenho borrões nos olhos, e entretanto mexo no cabelo, e dou uma olhada ao telemóvel e, cúmulo dos cúmulos... como um Kinder Bueno... que entretanto partilho com o banco do carro e as minhas calças lavadinhas...
Este pequeno parágrafo no FB de uma boa amiga deu-me que pensar. Há uma coisa que eu detesto que me digam: “Vocês são…”. É um bom início de frase para me despoletar. Vocês quem???
A resposta geralmente é “vocês, as mulheres…”. Pois bem, eu não sou AS mulheres. Na melhor das hipóteses sou UMA mulher, e se há coisa que não me cai bem é ser generalizada com uma infinidade de seres tão díspares uns dos outros quanto…sei lá…quanto carros! Isso, carros. Aí está qualquer coisa com que vocês, os homens, se devem conseguir identificar: Dizer que “as mulheres” são iguais, é como dizer, a quem quer comprar um BMW: “Oh, compra antes um Fiat Panda, é a mesma coisa, e fica-te mais em conta!”.
Mas esperem…ups…acho que estou a cair no mesmo erro! O que eu quero dizer é que eu sou um…um…sei lá, um Land Rover com alguns defeitos na transmissão, e não tenho nada a ver com um Ford Ka, ou com um Micra a não ser o facto de ter 4 rodas. A maior parte das vezes, pelo menos. Depois, há alturas em que me sinto num parque de vendas da Peugeot, recheado de modelos absolutamente iguais. Sim, porque há alturas em que, afinal de contas, somos um bocadinho iguais.
Concordo que a pala do sol, com o vanity mirror no interior, é dos acessórios mais importantes no interior de um carro, por exemplo. Vivo lindamente sem ar condicionado, mas nada me faz mais confusão que baixar uma destas palas e não ver NADA. Por momentos dá-me aquele choque de sentir que fiquei invisível ou invisual, e depois uma frustração em nada proporcional à situação: ELPE! E se estou com borrões nos olhos…? Ou com pêlos no nariz? (Não que eu consiga fazer alguma coisa aos pêlos, enquanto conduzo, se os tiver, mas sempre me consciencializo, certo?) Começo logo a encontrar borbulhas que precisaria, imediatamente, de verificar ao espelho…
E a questão do telemóvel… grande chis-dê, em vocabulário afeicebucalhado! Por vezes chega a parecer um ritual: Zapp no rádio – espreita o espelho – vê o telemóvel – zapp no rádio … E é ridículo: Temos o raio do engenho a vibrar, não sentimos vibração, ergo: Não temos nada de novo nele, não vale a pena carregar para confirmar. E ainda assim confirmamos. E depois espreitamos o espelho, para ver se tá tudo no sítio, caso nos cruzemos com a pessoa que não nos está a mandar mensagens… E o pior de tudo, é ter noção perfeita de quão ridículo isto tudo é. Sabemos que nos maquilhámos em casa, que estava tudo bem, e sabemos que não há mensagens novas no telemóvel.
Mas, já agora, vamos dar uma vistinha de olhos… e um toque na franja.
PS: Fiquei mais descansada agora: sempre há uma parte crucial do texto da minha amiga com a qual não me identifico nada: As calças lavadinhas. Isso eu de facto não tenho, nem quase me lembro o que seja. Afinal, sempre somos todas diferentes umas das outras. Dois pontos – Tracinho – Dê.
Tendo-se iniciado com o meu Grand Tour, o meu interrail em Julho/Agosto de 2010, aqui pretendo publicar todo o tipo de divagações, desabafos, pensamentos, tretas, calúnias, mentiras escabrosas e mais o que me apetecer. In my castle, I'm my queen. Don't like it? Complain! And a great amount of good it will do you...
domingo, 25 de dezembro de 2011
Falando de Pro-formas de Natal
Há aquele – como diriam os brasileiros – aquele negócio do milagre natalício. O resultado da imaculada concepção, comemorada a 8 de Dezembro (nunca percebi como é que isto bate certo com um tempo de gestação mais ou menos fisiológico, mas pronto, tenhamos fé), e bafejado por vários tipos de ruminantes, por exemplo. Ou o velhaco Scrooge a cair em si e a salvar o pequeno, enfezado, tísico e fracote Tim.
Mas eu hoje quero mesmo abrir uma categoria nova: Os mistérios de Natal.
Vou-me debruçar sobre um mistério específico, e, como não podia deixar de ser, não é para falar bem. E é este o mistério das mensagens pro-forma. Sim. São aquelas sms - sem dúvida bem-intencionadas - mas absolutamente inúteis que me entopem o telemóvel nas alturas de festa, com destaque para a quadra presente. E noto que a cada ano que passa me torno menos tolerante. Estou quase a atingir o patamar da má-educação em que respondo com vocabulário personalizado mas pouco senhoril a recomendar que coloquem tais manifestações de espírito natalício onde o sol não brilha e os Oxiurus vermicularis se contorcem. Calma, ainda não estou lá. Mas que me falta a pachorra, falta. E é para todas! TODAS.
As que tentam ser engraçadinhas e falam de renas bêbedas, Pais Natal em greve e traseiros de duende; as melosamente sinceras à la chapa 7, que querem honestamente que todos os meus desejos mais íntimos se realizem (acreditem, you don’t!), ou que me categorizam como “aqueles que … [inserir opção com a qual se identifique]; as artisticamente empenhadas, que armam pinheirinhos de asteriscos com bolas de parênteses (ou parêntesis); em suma todo o resultado de polegares velozes que me leva a pensar que eu sou “todos os amigos”, “uma pessoa especial”, “vocês” ou mesmo só um “tu”. Yeah Yeah, everyone is special. Which is the same as saying no one is.
Pessoal, acreditem, não me sinto minimamente especial ou honrada por meterem uma gaivota, um certinho, um tick, chamem o que quiserem ao tal rabisco que indica “selecionar”, na vossa extensa lista de contactos, para que eu receba uma mensagemzinha que toda a gente recebe, e que ainda por cima deve ser à BORLA.
Não é natalício. Não é fixe. E muito honestamente, acho que ninguém lê essas mensagens até ao fim. Ou então só pessoal idoso que não percebe que dá para fazer isso com um telemóvel. (Desculpe arruinar a imagem do seu sobrinho carinhoso e poeta, Tia Estrudes!)
E o cúmulo é quando elas começam a aparecer repetidas…! Segurem-me!
Enfim, o que eu queria mesmo pedir, muito sincera e honestamente, e do fundo do meu coração, e com carinho e amor, é que se não dá para me escreverem uma mensagem que se dirija a MIM directamente, e que me permita perceber isso, então deixem, não faz mal, adoro-vos na mesma, e irritam-me menos.
Portanto, a todos os que me leram, um santo Natal e que desembrulhem muitos presentes cheios de amor e paz e mais tudo o que desejam, vocês, meus amigos especiais, que estão sempre ao meu lado, e vai um brinde de vinho quente!
Mas eu hoje quero mesmo abrir uma categoria nova: Os mistérios de Natal.
Vou-me debruçar sobre um mistério específico, e, como não podia deixar de ser, não é para falar bem. E é este o mistério das mensagens pro-forma. Sim. São aquelas sms - sem dúvida bem-intencionadas - mas absolutamente inúteis que me entopem o telemóvel nas alturas de festa, com destaque para a quadra presente. E noto que a cada ano que passa me torno menos tolerante. Estou quase a atingir o patamar da má-educação em que respondo com vocabulário personalizado mas pouco senhoril a recomendar que coloquem tais manifestações de espírito natalício onde o sol não brilha e os Oxiurus vermicularis se contorcem. Calma, ainda não estou lá. Mas que me falta a pachorra, falta. E é para todas! TODAS.
As que tentam ser engraçadinhas e falam de renas bêbedas, Pais Natal em greve e traseiros de duende; as melosamente sinceras à la chapa 7, que querem honestamente que todos os meus desejos mais íntimos se realizem (acreditem, you don’t!), ou que me categorizam como “aqueles que … [inserir opção com a qual se identifique]; as artisticamente empenhadas, que armam pinheirinhos de asteriscos com bolas de parênteses (ou parêntesis); em suma todo o resultado de polegares velozes que me leva a pensar que eu sou “todos os amigos”, “uma pessoa especial”, “vocês” ou mesmo só um “tu”. Yeah Yeah, everyone is special. Which is the same as saying no one is.
Pessoal, acreditem, não me sinto minimamente especial ou honrada por meterem uma gaivota, um certinho, um tick, chamem o que quiserem ao tal rabisco que indica “selecionar”, na vossa extensa lista de contactos, para que eu receba uma mensagemzinha que toda a gente recebe, e que ainda por cima deve ser à BORLA.
Não é natalício. Não é fixe. E muito honestamente, acho que ninguém lê essas mensagens até ao fim. Ou então só pessoal idoso que não percebe que dá para fazer isso com um telemóvel. (Desculpe arruinar a imagem do seu sobrinho carinhoso e poeta, Tia Estrudes!)
E o cúmulo é quando elas começam a aparecer repetidas…! Segurem-me!
Enfim, o que eu queria mesmo pedir, muito sincera e honestamente, e do fundo do meu coração, e com carinho e amor, é que se não dá para me escreverem uma mensagem que se dirija a MIM directamente, e que me permita perceber isso, então deixem, não faz mal, adoro-vos na mesma, e irritam-me menos.
Portanto, a todos os que me leram, um santo Natal e que desembrulhem muitos presentes cheios de amor e paz e mais tudo o que desejam, vocês, meus amigos especiais, que estão sempre ao meu lado, e vai um brinde de vinho quente!
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
GPS e Mikey
E depois há a questão do GPS.
Desde há alguns anos atrás tem-se vindo a popularizar o uso destes pequenos aparelhos conhecidos por Jêpêésse… sem nunca nos lembrarmos que a sigla significa “Global Positioning System” (cááála-te, se não tivesse acabado de escrever também não te lembravas!). De início muito dispendiosos e raros, estão agora ao alcance de (quase) qualquer bolso determinado em possuir um, e, por consequência, proliferam que nem cogumelos nos tabliers dos carros pessoais.
No meu não. Proliferam muitas coisas no meu carro, um Toyota Corolla de nome Mikey, mas Jêpêésses não são uma delas. Proliferam nele, por exemplo: lixo, pó, sujidade entranhada, pêlos de cão, tralha... Tralha é como quem diz: faz-me tudo falta!
Imaginemos que fico empanada no meio de uma estrada deserta, (Vá, numa hora em que o próximo carro com seres vivos do sexo masculino, prontos a ajudar, está muito, muito longe), e imaginem que não tenho, pelo menos:
um telefone com carregador,
comida,
água,
uma gamela para os cães,
os cães,
comida para os cães,
um canivete,
uma colher para comer a comida (minha e dos cães),
um machado para me defender e/ou matar e poder comer os cães,
um cobertor,
uma muda de roupa confortável para fugir ou arranjar o carro,
uma muda de roupa sensual para convencer alguém a fazê-lo por mim,
um livro para me entreter,
um frisbee para entreter o cão,
uma bola para entreter a cadela, e impedir que se embrulhe à luta com o cão, por causa do frisbee, e ainda
umas antenas de rena, só naquela??!!
Não pode ser, obviamente. Como vêem, não é tralha, são, na verdade, utilidades que me permitem viver no carro, como qualquer pessoa que se preze. E não imaginam a trabalheira que é redistribuir todos estes objectos quando alguma pessoa bem intencionada agarrou tudo e pôs em caixas, em prol da limpeza e arrumação do veículo.
Ah, e depois sou eu a hippie doida, porque tenho de comer iogurtes com o dedo, porque me jogaram a colher de plástico (suja) fora! E tenho de comprar pacotinhos de pó no ebay porque senão como é que explico o caminho para não-sei-aonde a alguém, com um croqui desenhado no tablier?
Posto isto, não tenho GPS. Sou da velha guarda. Para além de que já me dá uma trabalheira dos diabos descortinar qualquer comando de TV com mais de 6 botões (on/off, P+, P-, Vol+, Vol- e mute), e não sinto necessidade alguma de me meter em mais geringonças. Alternativamente, perco-me. Perco-me, e depois encontro-me. Da segunda vez a mesma coisa, e da terceira sei o caminho. Durante uns meses. E depois recomeçamos o ciclo. Parece um método aceitável, não?
Até porque o GPS funciona como o “luring”, no treino canino. É engraçado usar, mas deve ser eliminado rapidamente porque abranda a aprendizagem, uma vez que o animal não precisa de pensar, vai só seguir a recompensa.
E até porque aquela do “eu uso o GPS para não me perder” não cola! Certo amigo meu após umas 2 horas às voltas no mato, entre instruções de por favor faça inversão de marcha quando possível chegou ao topo de uma falésia, ao que a senhora docemente o instruiu: siga em frente cerca de 150 metros, o que felizmente a boa luminosidade e o senso comum não lhe permitiram fazer. O GPS voou pela janela, e passado meia hora o rapaz seguia para casa pelo IP mais próximo. So much for technologies.
Mas a minha teoria é outra: A mim, quer-me parecer que as pessoas, ou talvez não deva generalizar, mas um certo tipo de pessoas quezilentas e beligerantes, arranjam estes aparelhinhos demoníacos só para terem alguém com quem discordar e com quem discutir.
Ligam o seu GPS ancestral e económico, já a reclamar que vai demorar 20 minutos a encontrar sinal (e dizem isto cheias de satisfação, deus as livre de o ligarem com antecedência, e de perderem a oportunidade de se arreliarem), e uma vez que a maquineta se orienta e começa a cuspir instruções insistentes e irritantes, aí é que é. Nem pensar em segui-las! Antes pelo contrário! Após 200 metros siga pela 2ª saída da rotunda. Parece razoável? HAH! Exclama a condutora. Cala o bico! Deves perceber uma grande coisa disto! E enfia pela primeira rua à esquerda. Por favor vire à direita. Essa é que era boa!! À direita?? Quando vejo o mar à esquerda? HAH, deves ter uma sorte! Vire ligeiramente à esquerda, aconselha a senhora, enquanto o condutor quase se despista numa curva em cotovelo, que já só conseguiu fazer em duas rodas…
E eu rio-me. Rio-me, encosto, e desdobro o meu fantástico mapa de Portugal, que demora cerca de 5 minutos a redobrar correctamente, mas pelo menos não me responde com maldade e insolência, que tenho cá muito pouca paciência para essas coisas.
Saídas esquisitas das rotundas de hoje que eram os cruzamentos de ontem e possivelmente são os túneis de amanhã… haja paciência, e um paninho para a embrulhar. E para limpar o vidro, que alguém guardou o meu limpa-vidros numa caixa.
Desde há alguns anos atrás tem-se vindo a popularizar o uso destes pequenos aparelhos conhecidos por Jêpêésse… sem nunca nos lembrarmos que a sigla significa “Global Positioning System” (cááála-te, se não tivesse acabado de escrever também não te lembravas!). De início muito dispendiosos e raros, estão agora ao alcance de (quase) qualquer bolso determinado em possuir um, e, por consequência, proliferam que nem cogumelos nos tabliers dos carros pessoais.
No meu não. Proliferam muitas coisas no meu carro, um Toyota Corolla de nome Mikey, mas Jêpêésses não são uma delas. Proliferam nele, por exemplo: lixo, pó, sujidade entranhada, pêlos de cão, tralha... Tralha é como quem diz: faz-me tudo falta!
Imaginemos que fico empanada no meio de uma estrada deserta, (Vá, numa hora em que o próximo carro com seres vivos do sexo masculino, prontos a ajudar, está muito, muito longe), e imaginem que não tenho, pelo menos:
um telefone com carregador,
comida,
água,
uma gamela para os cães,
os cães,
comida para os cães,
um canivete,
uma colher para comer a comida (minha e dos cães),
um machado para me defender e/ou matar e poder comer os cães,
um cobertor,
uma muda de roupa confortável para fugir ou arranjar o carro,
uma muda de roupa sensual para convencer alguém a fazê-lo por mim,
um livro para me entreter,
um frisbee para entreter o cão,
uma bola para entreter a cadela, e impedir que se embrulhe à luta com o cão, por causa do frisbee, e ainda
umas antenas de rena, só naquela??!!
Não pode ser, obviamente. Como vêem, não é tralha, são, na verdade, utilidades que me permitem viver no carro, como qualquer pessoa que se preze. E não imaginam a trabalheira que é redistribuir todos estes objectos quando alguma pessoa bem intencionada agarrou tudo e pôs em caixas, em prol da limpeza e arrumação do veículo.
Ah, e depois sou eu a hippie doida, porque tenho de comer iogurtes com o dedo, porque me jogaram a colher de plástico (suja) fora! E tenho de comprar pacotinhos de pó no ebay porque senão como é que explico o caminho para não-sei-aonde a alguém, com um croqui desenhado no tablier?
Posto isto, não tenho GPS. Sou da velha guarda. Para além de que já me dá uma trabalheira dos diabos descortinar qualquer comando de TV com mais de 6 botões (on/off, P+, P-, Vol+, Vol- e mute), e não sinto necessidade alguma de me meter em mais geringonças. Alternativamente, perco-me. Perco-me, e depois encontro-me. Da segunda vez a mesma coisa, e da terceira sei o caminho. Durante uns meses. E depois recomeçamos o ciclo. Parece um método aceitável, não?
Até porque o GPS funciona como o “luring”, no treino canino. É engraçado usar, mas deve ser eliminado rapidamente porque abranda a aprendizagem, uma vez que o animal não precisa de pensar, vai só seguir a recompensa.
E até porque aquela do “eu uso o GPS para não me perder” não cola! Certo amigo meu após umas 2 horas às voltas no mato, entre instruções de por favor faça inversão de marcha quando possível chegou ao topo de uma falésia, ao que a senhora docemente o instruiu: siga em frente cerca de 150 metros, o que felizmente a boa luminosidade e o senso comum não lhe permitiram fazer. O GPS voou pela janela, e passado meia hora o rapaz seguia para casa pelo IP mais próximo. So much for technologies.
Mas a minha teoria é outra: A mim, quer-me parecer que as pessoas, ou talvez não deva generalizar, mas um certo tipo de pessoas quezilentas e beligerantes, arranjam estes aparelhinhos demoníacos só para terem alguém com quem discordar e com quem discutir.
Ligam o seu GPS ancestral e económico, já a reclamar que vai demorar 20 minutos a encontrar sinal (e dizem isto cheias de satisfação, deus as livre de o ligarem com antecedência, e de perderem a oportunidade de se arreliarem), e uma vez que a maquineta se orienta e começa a cuspir instruções insistentes e irritantes, aí é que é. Nem pensar em segui-las! Antes pelo contrário! Após 200 metros siga pela 2ª saída da rotunda. Parece razoável? HAH! Exclama a condutora. Cala o bico! Deves perceber uma grande coisa disto! E enfia pela primeira rua à esquerda. Por favor vire à direita. Essa é que era boa!! À direita?? Quando vejo o mar à esquerda? HAH, deves ter uma sorte! Vire ligeiramente à esquerda, aconselha a senhora, enquanto o condutor quase se despista numa curva em cotovelo, que já só conseguiu fazer em duas rodas…
E eu rio-me. Rio-me, encosto, e desdobro o meu fantástico mapa de Portugal, que demora cerca de 5 minutos a redobrar correctamente, mas pelo menos não me responde com maldade e insolência, que tenho cá muito pouca paciência para essas coisas.
Saídas esquisitas das rotundas de hoje que eram os cruzamentos de ontem e possivelmente são os túneis de amanhã… haja paciência, e um paninho para a embrulhar. E para limpar o vidro, que alguém guardou o meu limpa-vidros numa caixa.
domingo, 5 de setembro de 2010
Wannit, wannit can’t havit, havit havit, don’t wannit
Wannit, wannit can’t havit, havit havit, don’t wannit
Ou: Quando as Pessoas Comem as Tuas Bolachas de Água e Sal.
Isto é uma reflexão sobre um traço de carácter ruim, que de resto, venho a descobrir, é bastante comum, sendo partilhado pela maior parte da humanidade, o que não faz a coisa melhor, mas o que pelo menos nos faz ser ruins em boa companhia.
Imagine-se que duas pessoas acabam. Ou que uma pessoa acaba a relação, e a outra fica de coração mediana até profundamente destroçado. Não, nada de traçar paralelos com a realidade! Quem é que disse que estou a falar de pessoas reais? Mau mau maria, isto é um suponhamos que estou a conjecturar na primeira pessoa, até parece que não me conhecem.
Estas duas pessoas terminam, portanto, a relação, com consentimento unilateral, e partem para as novas vidinhas, ligeiros e livres uns, miseráveis e de coração partido os outros.
Agora a faceta curiosa e estranha que me proponho analisar é que a parte A da equação, chamemos-lhe “mulher”, que até foi a origem do término, vive lindamente com tudo, até que – ATENÇÃO - entre uma parte C, chamemos lhe mulher 2 na imagem e na vida de B, o troglodita em questão.
O comportamento irracional que venho por este meio tornar público e descrever é recorrente, generalizado e documentado ao longo das gerações (falei com mãe e avós). Tenho relatos de pessoas que admiro e estimo, e considero inteligentes, mas que ao verem o seu ex-respectivo, ao fim de meses de luto, aparecer com uma menina nova, tomaram atitudes degradantes como martelar em portas e exigir que “todas as meretrizes evacuem os quartos que não lhes pertencem”.
Ah pois, Desapareçam, as legitimas proprietárias precisam de vir alçar a perna! Apesar de estas legitimas proprietárias andarem a curtir a vida há meses, em constelações variáveis de novos meninos, uns loiros, outros morenos, outros de cabelos compridos, etc.
E quando se pergunta, fundamentadamente, algumas coisas à parte A, ainda parece fazer menos sentido:
Por acaso queres estar com ele? Alguma vez sentiste que querias voltar para a relação? Ama-lo, lá no fundo?
Ah não, não, isso não. Afinal o gajo até era um chato que me fazia infeliz duas vezes por semana, não temos nada a ver um com o outro, tenho um namorado novo há 9 meses, e por acaso até gosto bastante dele, mas...
Mas o quê? Mas não podes racionalizar ao ponto de veres o teu ex-respectivo feliz ao lado de uma pessoa nova?
Posso posso.Obviamente que sim. Racionalmente fico muito contente por ele, acho-a querida, e até consigo falar com ela sobre cães e fazer um sorriso afável aos beijinhos de recém-apaixonados. O pior é irracionalmente.
Irracionalmente estou profundamente indignada. Indignadíssima. Acho de mau gosto. Ah pois é. Não sei bem o que é de mau gosto, mas que é, é. Enquanto achava que ele andava infeliz e celibatário a chorar pela minha estonteante pessoa, tudo bem. É compreensível, afinal perder-me a mim não deve ser nada fácil, huh, de modo que respondia com magnânimidade às mensagens com juras de amor eterno, dava abraços compreensivos de quem emocionalmente é estável e põe estas coisas para trás das costas – lá está – racionalmente equilibrada e sem culpa nenhuma de as coisas terem corrido como correram.
Irracinalmente acho que é um descaramento a criatura arranjar uma galdéria...Arranjar uma galdéria sem...sei lá, sem me consultar! Nem que seja para eu passar o atestado de galdéria. Porque afinal de contas eu conheço-o melhor que ninguém, e apesar de nos últimos anos da nossa relação o desejo de racharmos o crâneo um ao outro com alguma frequência se ter sobreposto a outro qualquer desejo, eu devia ter uma palavra nisto!
Euzinha, “simplesmente eu” como dizem as labregas nos seus albuns de fotos do facebook, devia poder definir que ela não pode, de modo algum, ser menos bonita/fixe/esperta que eu...senão onde é que vamos parar, há que manter uma certa fasquia!
E não pode, sou muito vincada neste ponto, ser mais bonita/fixe/esperta que eu, pois obviamente há que manter um lugar de destaque, que é o de expoente máximo de qualquer coisa, enfim, como já diz o meu actual, todas as mulheres querem deixar uma marca, quer seja serem as primeiras a dar flores a um homem (Did you know that to a man blowjobs are like flowers?), quer sejam as que ficam gravadas no coração dele como sendo The One, aquele amor que nunca será esquecido.
Não é por nada, mas já que estou aqui a queixar-me, puramente no domínio hipotético, claro está, deixem-me dizer-vos que não esperava menos que este último cargo. Hey, moron, I’m the one!! Importas-te?
O que é que estás aqui a fazer, a desenvolver actividades libidinosas com um pigmeu com um rabo mais feio que o meu? Mas eu não te incumbi de uma tarefa?
Sim, a última vez que verifiquei estavas a tomar conta do verniz do meu ego! Não tinhas uma infelicidade a cultivar? Perdeste-me, lembras-te? Preciso de pelo menos uma mensagem de duas em duas semanas para ter a certeza de que te lembras da gravidade da situação, senão, como já perguntei anteriormente, onde é que isto vai parar? Huh?
Não que a mulher A queira o referido troglodita volta, isso está claro. Mas é como certo cão cabeçudo – mais uma vez, nada a ver com o meu Winston – quando encontra meio pacote de bolachas de água e sal: Não as come, isso não, afinal terá ração de 55 € quando chegar a casa, mas é o fim do mundo em cuecas se a labradora as quiser comer. Jamais! Nem que para isso tenha de fazer o sacrifício de fazer de conta que gosta delas.
Obviamente eu não sou um cão, e sou racional. Imensamente. E não vou comer bolachas de água e sal que já enjoei há 3 anos. Vou para casa ver da minha taça de ração cara.Que até me faz muito melhor à saúde. Isto não sem um ligeirinho ressentimento. Afinal, toda a gente gosta de ter um pacote de bolachas de água e sal na despensa, para quando a ração acaba, ou a padaria está fechada.
Ou: Quando as Pessoas Comem as Tuas Bolachas de Água e Sal.
Isto é uma reflexão sobre um traço de carácter ruim, que de resto, venho a descobrir, é bastante comum, sendo partilhado pela maior parte da humanidade, o que não faz a coisa melhor, mas o que pelo menos nos faz ser ruins em boa companhia.
Imagine-se que duas pessoas acabam. Ou que uma pessoa acaba a relação, e a outra fica de coração mediana até profundamente destroçado. Não, nada de traçar paralelos com a realidade! Quem é que disse que estou a falar de pessoas reais? Mau mau maria, isto é um suponhamos que estou a conjecturar na primeira pessoa, até parece que não me conhecem.
Estas duas pessoas terminam, portanto, a relação, com consentimento unilateral, e partem para as novas vidinhas, ligeiros e livres uns, miseráveis e de coração partido os outros.
Agora a faceta curiosa e estranha que me proponho analisar é que a parte A da equação, chamemos-lhe “mulher”, que até foi a origem do término, vive lindamente com tudo, até que – ATENÇÃO - entre uma parte C, chamemos lhe mulher 2 na imagem e na vida de B, o troglodita em questão.
O comportamento irracional que venho por este meio tornar público e descrever é recorrente, generalizado e documentado ao longo das gerações (falei com mãe e avós). Tenho relatos de pessoas que admiro e estimo, e considero inteligentes, mas que ao verem o seu ex-respectivo, ao fim de meses de luto, aparecer com uma menina nova, tomaram atitudes degradantes como martelar em portas e exigir que “todas as meretrizes evacuem os quartos que não lhes pertencem”.
Ah pois, Desapareçam, as legitimas proprietárias precisam de vir alçar a perna! Apesar de estas legitimas proprietárias andarem a curtir a vida há meses, em constelações variáveis de novos meninos, uns loiros, outros morenos, outros de cabelos compridos, etc.
E quando se pergunta, fundamentadamente, algumas coisas à parte A, ainda parece fazer menos sentido:
Por acaso queres estar com ele? Alguma vez sentiste que querias voltar para a relação? Ama-lo, lá no fundo?
Ah não, não, isso não. Afinal o gajo até era um chato que me fazia infeliz duas vezes por semana, não temos nada a ver um com o outro, tenho um namorado novo há 9 meses, e por acaso até gosto bastante dele, mas...
Mas o quê? Mas não podes racionalizar ao ponto de veres o teu ex-respectivo feliz ao lado de uma pessoa nova?
Posso posso.Obviamente que sim. Racionalmente fico muito contente por ele, acho-a querida, e até consigo falar com ela sobre cães e fazer um sorriso afável aos beijinhos de recém-apaixonados. O pior é irracionalmente.
Irracionalmente estou profundamente indignada. Indignadíssima. Acho de mau gosto. Ah pois é. Não sei bem o que é de mau gosto, mas que é, é. Enquanto achava que ele andava infeliz e celibatário a chorar pela minha estonteante pessoa, tudo bem. É compreensível, afinal perder-me a mim não deve ser nada fácil, huh, de modo que respondia com magnânimidade às mensagens com juras de amor eterno, dava abraços compreensivos de quem emocionalmente é estável e põe estas coisas para trás das costas – lá está – racionalmente equilibrada e sem culpa nenhuma de as coisas terem corrido como correram.
Irracinalmente acho que é um descaramento a criatura arranjar uma galdéria...Arranjar uma galdéria sem...sei lá, sem me consultar! Nem que seja para eu passar o atestado de galdéria. Porque afinal de contas eu conheço-o melhor que ninguém, e apesar de nos últimos anos da nossa relação o desejo de racharmos o crâneo um ao outro com alguma frequência se ter sobreposto a outro qualquer desejo, eu devia ter uma palavra nisto!
Euzinha, “simplesmente eu” como dizem as labregas nos seus albuns de fotos do facebook, devia poder definir que ela não pode, de modo algum, ser menos bonita/fixe/esperta que eu...senão onde é que vamos parar, há que manter uma certa fasquia!
E não pode, sou muito vincada neste ponto, ser mais bonita/fixe/esperta que eu, pois obviamente há que manter um lugar de destaque, que é o de expoente máximo de qualquer coisa, enfim, como já diz o meu actual, todas as mulheres querem deixar uma marca, quer seja serem as primeiras a dar flores a um homem (Did you know that to a man blowjobs are like flowers?), quer sejam as que ficam gravadas no coração dele como sendo The One, aquele amor que nunca será esquecido.
Não é por nada, mas já que estou aqui a queixar-me, puramente no domínio hipotético, claro está, deixem-me dizer-vos que não esperava menos que este último cargo. Hey, moron, I’m the one!! Importas-te?
O que é que estás aqui a fazer, a desenvolver actividades libidinosas com um pigmeu com um rabo mais feio que o meu? Mas eu não te incumbi de uma tarefa?
Sim, a última vez que verifiquei estavas a tomar conta do verniz do meu ego! Não tinhas uma infelicidade a cultivar? Perdeste-me, lembras-te? Preciso de pelo menos uma mensagem de duas em duas semanas para ter a certeza de que te lembras da gravidade da situação, senão, como já perguntei anteriormente, onde é que isto vai parar? Huh?
Não que a mulher A queira o referido troglodita volta, isso está claro. Mas é como certo cão cabeçudo – mais uma vez, nada a ver com o meu Winston – quando encontra meio pacote de bolachas de água e sal: Não as come, isso não, afinal terá ração de 55 € quando chegar a casa, mas é o fim do mundo em cuecas se a labradora as quiser comer. Jamais! Nem que para isso tenha de fazer o sacrifício de fazer de conta que gosta delas.
Obviamente eu não sou um cão, e sou racional. Imensamente. E não vou comer bolachas de água e sal que já enjoei há 3 anos. Vou para casa ver da minha taça de ração cara.Que até me faz muito melhor à saúde. Isto não sem um ligeirinho ressentimento. Afinal, toda a gente gosta de ter um pacote de bolachas de água e sal na despensa, para quando a ração acaba, ou a padaria está fechada.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Amámos e Agonizámos aim Amesterdão
Amesterdão...Amsterdam, Dam no rio Amstel, um “l” que muda para “r”, o que de resto é um fenómeno linguístico comum e estudado por muitos mais competentes que eu, e aí temos a explicação do nome da cidade.
Cidade esta que está cheia de estereótipos. Talvez de todas as cidades que passámos aquela que mais se embrulha numa cobertura de conceitos pré-estabelecidos, de regras diferentes, de um ideal de mentes abertas que se reflecte em actos fechados e que acaba por reduzi-la a algo tão mais pequeno do que aquilo que podia ser. Amsterdam no fundo é Loret del Mar, mas à escala global, ehhhh, a puta da loucura, Se te lembras é porque não foste... Claro que por aí a capital dos Países Baixos também provocava um fascínio e uma curiosidade especial aos Misters, com destaque para o Mr.Y, que desde Roma que andava possesso com a ideia de vaguear por Amsterdão. Ele, e todos os outros milhares de putos que escolheram as férias grandes para fazer o interrail e que definiram esta cidade como a cidade onde quebrar as amarras e fazer tudo o que as mamãs não gostariam de vê-los fazer.
Significando isto que a cidade estava à pinha. Só no posto de turismo, que tinha um sistema de senhas de atendimento e 40 pessoas à nossa frente, demorámos mais de uma hora para obter um mapa e algumas informações sobre pousadas da juventude. Depois de pousadas a 10 euros em Praga e apartamentos à borla em Berlim, custava-nos acreditar que não se arranjava nada mais barato que 25 euros em dormitórios separados...Huh? Mas eu estou habituada a dormir com os meus meninos...coméquié? Foi quase como se me disessem que não posso levar o Winston para dentro de um hotel, uma pessoa habitua-se a certas rotinas, né?
Decidimos procurar nós mesmos, presencialmente, e seguindo uma lista que nos tinham facultado num gabinete de reserva e marcação de hostels e hotéis, onde uma senhora extremamente antipática me puxou as orelhas por nos atrevermos a existir ali neste mês. Seríamos nós estúpidos? Não víamos que a cidade estava cheia? Não percebiamos que ia ser caro? Isto quando eu nem sequer me tinha queixado de preços nenhuns, estava mesmo só a investigar. Às tantas desisti, e fomos até à rua, onde o Mr.Y teve um raro momento de determinação para resolução de problemas, voltando a entrar lá para dentro, onde tanto moeu a molécula à senhora que a fez telefonar para todos os sítios na lista e fora dela a pedir informações detalhadas. Pelo que ele diz limitou-se a olhar para ela, responder “okay” a todas as reclamações e a insistir “please phone”. Acho que ela só não o matou com um clog bem assente no crâneo porque havia demasiadas testemunhas.
Daí seguimos para o hostel mais barato que nos tinham indicado, mas fomos apanhados, antes de lá chegarmos, por um rapaz à porta de um minimercado, que nos perguntou se procurávamos casa. O pai dele era dono de um pequeno albergue ali mesmo na esquina, e acabámos por ficar num apartamento engraçado, no primeiro andar, com sala com uma cama e um sofá, cozinha equipada, casa de banho e quarto com duas camas. Tudo muito limpo e bem-arranjado, e pouco mais caro que o hostel de dormitórios separados, este seria o nosso lar durante os próximos dias. Atirámos as coisas para lá e fomos comer umas massas ao restaurante italiano duas casas abaixo, rezando para que não houvesse uma especialidade holandesa chamada servitje e copertaaskje que acrescentasse 15 euros aos preços referidos no menu...
E lá fomos nós para as ruas destinadas aos turistas, ver quais eram os items mais comprados aqui nesta cidade. Depressa confirmámos que vivia tudo à luz de ganzas e sexo, basicamente. Se não era alusivo a drogas leves, era alusivo ao redlight district e às prostitutas, ou ainda, no melhor dos casos, como tornar namoradas em coisas amordaçadas, vestidas de latex e com artefactos curiosos enfiados em todo e qualquer orifício corporal. Bem me parece que numa das incontáveis sex-shops até um vibrador auricular vi... Consolava-me não estar ali com crianças pequenas, teria sido mais difícil caminhar, tendo de tapar os olhinhos do Winston a cada dez passos ou gritando desesperadament: No, naughty boy, is not ball, is toy for willy, NO NO, for willy, not for Winston, deixa as pilinhas voadoras em paz, e venha com a mãe! JUNTO!! MrY, tira-lhe isso da boca! O quê? Não queres? What do you mean, é embaraçoso?? Não ves que eu não o posso largar que ele fura aquilo, e aquilo é insuflavel mas caro!
Mas estou a exagerar. Afinal também havia túlipas e clogs de madeira, coisas com moínhos e lojas de queijo que eram um pecado, davam colesterol só de olhar. Agora que as drogas leves eram de longe o campo mais produtivo a nível de objectos vendíveis, é uma verdade. Há lojas de sementes, com catálogos de inúmeras espécies de plantas com nomes como Super Skunk, Shiva Shanti, White Widow, Afghan Kush, Hollands Hope, Cali Orange Bud, etc, etc, são inúmeras e têm preços muito diferentes, no caso de se querer coprar as sementes, que são umas bolinhas de aspecto inofensivo, tipo comida para piriquitos. E, claro, também toda a parafernália que vai com a fase de crescimento, desde estufas, até luzes e ventoinhas especiais, protector solar para as folhas, um pentezinho para as pentear depois do banho, redes de colheita, funis, grinders, champô antiparasitário, música ambiente com base reggae e medidores de THC. (não acreditem em tudo o que eu escrevo). Já para não falar em bolos, cervejas, roupas, preservativos...tudo hemp-based. E T-shirts (“Why drink and drive if you can smoke and fly?”), fitas para o cabelo, cinzeiros, placas, cuecas, brincos, malas, e tudo mais o que apresente uma superficie utilizável, decorados com a referida simbologia. Ao fm de algumas horas deixou de ter tanta piada.
E os famosos coffee shops, claro. Que maioritáriamente estão populados por putos turistas, do tipo wannabe rastas, que acham que acabaram de comprar o bilhete directamente para o departamento dos fixes e cromos da vida só porque estão pedrados que nem uma afegã lapidada deitados nas almofadas e pufs de um café em Amesterdão. Ride on baby, it doesn’t get any cooler than that!
Fomos passear um pouco pela cidade, por cima de tantas pontes e canais que o Mr.X afirmou que se o tivessem colocado ali, dizendo-lhe que era Veneza, ele teria acreditado. Depois vim a descobrir que ele não é o único e que até chamam a esta cidade a “Veneza do Norte”. Os canais, em neerlandês, chamam-se “Graacht”. Os quatro importantes canais do centro da cidade são Prinsengracht, Herengracht, Keizersgracht e Singel. Estavamos com sorte, pois o tempo estava misericordioso (ainda) e até nos providenciava uns minutos de sol, de quando em quando, que nos permitiram sentar na praça Dam a ouvir o espectáculo ao vivo de um rapaz com guitarra, que cantou alguns evergreens eternos como Mr.Jones dos Counting Crows e Wonderwall dos Oasis, que é sempre bom relembrar.
Esta praça é o centro e o coração de Amesterdão e foi, por exemplo, a área de recepção para Napoleão e as suas tropas durante o ano de 1808 na reconquista da cidade mas agora encontra-se dominado pela variante Red Light District de um obelisco, o por nós apelidado “Pichilisco”, o que deixa adivinhar a sua forma vagamente, não, minto: a sua forma descaradamente fálica. É uma coisa enorme e branca, que supostamente é um monumento de memória às vítimas da 2ª Guerra Mundial, mas na realidade só serve de encosto ao pessoal que está a enrolar canhões. E não tem legenda em inglês das inscrições, que é uma pena. Também se situam nesta praça o palácio real, Het Koninklijk Paleis.
À noite fomos então passear pelo Red Light District, a zona mais antiga da cidade, em neerlandês chamada De Wallen, Walletjes ou Rosse Buurt, onde já os estivadores, marinheiros e militares se dirigiam para aliviar o stress.
Esta é a area atribuida aos negócios do sexo, especialmente à prostituição, legalizada neste país, e tornou-se uma das principais atracções turísticas da cidade. De Wallen consiste numa rede de ruas, travessas, vielas e becos crivadinhos em algumas centenas de T0 com montras, a partir dos quais a meninas oferecem ou impingem os seus serviços a quem passa, característicamente iluminadas por uma luz vermelha. Para além da prostituição também se podem encontrar por lá inúmeras sex shops, teatros de sexo, peep shows, um museu do sexo, um museu de cannabis e os incontornáveis coffee shops.
Os Misters e eu andávamos de olhos arregalados, a apreciar tanta Sodoma e Gomorra ali mesmo a alcançe de 50 € por 15 minutos (não me perguntem como é que eu sei isso), ou quem sabe era só eu que me preocupava com a objectificação da mulher, acho que os misters só olhavam mesmo para as maminhas e rabiosques... que havia para todos os gostos, desde fadas loiras e lindas, às quais só apetecia perguntar se com uma carinha assim não queriam antes ser modelos, até às mamãs afro-descententes, que tinham todo o ar de conseguir sufocar um homem de várias maneiras e feitios. Até vi senhoras que não qualificavam como tal, pela existência de um pichilisco, vulgarmente conhecido como pene...
Inicialmente é divertido andar por lá, especialmente estando em minoria absoluta – por incrível que pareça apesar de ser quase património cultural universal, não se vêem ali na rua tantas mulheres como eu esperava – e acompanhada de dois rapazes, mas quando se vai prestando mais atenção aos comentários da multidão e de quem nos acompanha não deixa de ser um pouco bitter-sweet. Se eu já tinha reluctância quanto ao facebook, pelo seu cariz de mercado da carne, ali então estava no centro de uma exposição humana, nas montras de um talho gigante, onde os pedaços de carne feminina se alinham para a apreciação geral. Gostaria de desenvolver um projecto fotográfico que passaria por substituir as miúdas das montras por autênticos bocados de carne, tipo metade de um borrego, uma cabeça de porco, uma entremeada de vaca, mas mantendo todo o resto igual...
É estranho ver aquelas raparigas ali, a maior parte delas de uma categoria carnal acima da namorada média, de sorriso colado no rosto, a mostrarem o seu corpo da maneira mais lisonjeante que conseguem, e do lado de fora do vidro estão todo o tipo de gajos, muito poucos deles atraentes ou minimamente parecidos ao jovem Brad Pitt, a comentar que “não tem mamas”, “tem um cú de foca”, “não vale nada”, “só presta para a ***********”, em várias línguas e vários tons. Comentários de pessoas que na minha lista de 0-10 possívelmente não passariam do 1.5, se vamos mesmo fazer a avaliação objectiva de seres humanos baseando-nos para isso em atributos físicos. Sim, é normal, sim é de esperar. Sim, é o que elas pedem, ao trabalhar ali. Mas isso fá-lo correcto? Isso fá-lo agradável? Para mim não. Posso ser uma menina inocente, cunhada pela geração do Pretty Woman, mas acho que prefiro ficar assim.
No dia seguinte de manhã, tinhamos de fazer uma visita guiada, de autocarro, e o tempo agradável tinha-se esgotado. Chovia. Bom, de autocarro não faz mal. Muito abreviadamente, uma vez que tive queixas referentes à extensão cultural deste blog (seus incultivados! ;-)), passámos o t’Kromhout, o mais antigo estaleiro da cidade, onde depois da 2ªGuerra Mundial, cujos bombardeamentos levaram a uma escassez flagrante de casas, se construiram mais de 200 barcos-casa que navegam pelos rios e canais.
Vimos o primeiro moínho da nossa estadia na Holanda, que estava transformado em cervejaria, um sítio ao qual resolvemos voltar, e a meio da visita fomos elucidadados acerca da razão desta ser tão barata. Pois fiquem sabendo que quando as visitas de autocarro custam 10 euros não devem esperar muito. Esta vivia de um truque do qual já fui vítima na Irlanda, é que consiste num sistema de comissões atribuidas à companhia que faz a visita e que leva a que os turistas sejam conduzidos até vários locais com o intuito mal-disfarçado de nos fazer comprar coisas.
Neste caso tratava-se de uma fábrica de diamantes, o que assim à primeira vista não parecia mal, sabendo que a cidade tinha sido, na altura áurea da holanda, a Gouden Eeuw, no séc.XVII o centro financeiro e de produção de diamantes do mundo, mas que se revelou uma seca de marketing. A fábrica chama-se Gassan Diamonds, e vá, okay, aprendemos algumas coisas interessantes sobre diamantes... Por exemplo que durante o corte e a polição se perde 50 a 60% do diamante...e pudémos ver este processo, que só pode ser levado a cabo com ferramentas cobertas em azeite e pó e fragmentos de diamante, devido à dureza extrema do mineral. Também ficámos a saber que a qualidade do diamante se avalia consoante os 4 “C”s, carat, colour, clarity e cut, sendo que 1 carat são 0,2 gramas – quantos mais melhor! E que um minúsculo diamante (tamanho de um quarto de um bago de arroz) pode ser polido de forma a ter 57 faces, que é o chamado “Amsterdam cut”.
O pior foi a parte das vendas...foram nos mostrar joias e diamantes prontos, e para isso falta me definitivamente um cromossoma. Secaaaa! Secaaa! Não quero diamantes...por favor nunca me ofereçam um, acho-os pirosos e a relação beleza-preço está completamente desequilibrada! Finalmente tivemos a feliz ideia de saír e ir beber o nosso “free drink” e de provar uma coisa, não free, que se chama “Stroopwafel”, uma espécie de waffel estaladiço recheado com creme de caramelo, que foi assim uma revelação, naquele momento chuvoso, e acompanhado de chá com leite. Foi pena é ter os Misters colados à perna, ou melhor, à Stoopwafel, que nem dois passarinhos de bico aberto, pois reduziu em 2/3 a quantidade por mim consumida. Mais tarde verificámos que em Amsterdam existe um McFlurry de Stroopwaffel que vale a pena provar, o que não significa que tenhamos ido ao McDonald’s, livra.
Posto isto, e eliminados muitos pormenores, quando acabámos a visita queriamos ir aos sítios que tinhamos achado mais interessantes, mas chovia a potes. Não fazia mal, afinal eu tinha acabado de comprar um pequeno e detestável guarda-chuva, - cujo cognome a partir daqui será mesmo só O Detestável, - e os misters tinham impermeáveis. Fizémo-nos à estrada, subestimendo completamente o efeito demoralizador da chuva quando o detestável se dobra e os impermeáveis perdem o im.
Não fomos ver a Anne Frankhuis, a casa de Anne Frank, onde ela escreveu o seu diário, e que também serve de espaço de exposição para todo o tipo de assuntos relacionados com a perseguição dos judeus e discriminação racial, pois custava caro e havia uma fila de centenas de pessoas, fica para uma próxima. O mesmo digo sobre o Rijksmuseum e o Van Gogh museum.
Tirámos as fotos da praxe em frente ao Schreierstoren, uma torre cujo nome é traduzido como “torre do choro”, “Schrei” sendo um grito, ou gemido, uma tradução que é fundamentada com o facto de ser ali que as mulheres choravam as partidas dos maridos para o mar, mas que no entanto é incorrecta, uma vez que o nome original era Schrayershoucktoren, torre da esquina apertada, sendo o nome actual não mais que uma abreviatura. Pouco romântico, eu sei.
E chovia. Procurámos abrigo no estaleiro velho, onde o Mr.Y despejou, pela 3ªvez, a água que se lhe acumulava nas mangas e o Mr. X esperou pacientemente que eu lhe prendesse o cabelo ensopado com um gancho. “Devia-me rebolar nas poças para uniformizar as manchas” concluiu o Mr. Y com alguma secura, e olhando para a sua linda figura. Mais vale humor, que um tumor.
O moínho era longe, apesar de no quentinho do autocarro não o ter aparentado, mas tivemos oportunidade de observar a arquitectura holandesa em alguns bairros mais residenciais, as casas muito estreitas, tal como no nosso albergue, que tinha umas escadas de tal forma escarpadas que fazia de nós uma espécie de quadrúpedes arfantes, e isto ainda sem efeito de drogas ou outras substâncias. Mamãs, notem a formulação. É por estas características arquitectónicas que todas as casas são equipadas com uma roldana no topo, que serve para içar as mobílias para os andares de cima, de forma a entrarem pelas janelas. Curioso, heim?
A dada altura estavamos encharcados, já não era só molhados, era encharcados mesmo. A água tinha-nos subido até aos joelhos, pelas fibras das calças, as mãos do Mr. X estavam transparentes e gélidas, as do Mr.Y quentes na mesma – injusto – e eu acabei por pronunciar a frase mais improvável de toda a viagem, sentidamente: “Chega de monumentos. Vamos tomar banho e metemo-nos no coffee-shop mais próximo e só saímos de lá para ir às putas.” Quatro olhinhos luziram, levei palmadas fortíssimas nas costas, e fui arrastada em dirrecção a casa sob urros de “Tá dito, tá dito”.
******
São 10:00h da manhã e acabei de acordar no nosso pequeno apartamento num primeiro andar de uma casa estreita, em Amsterdam, mesmo no meio do redlight district. A cama fica ao mesmo nível que a janela, e se me ajoelhar consigo espreitar para a rua abaixo. Estou com o cabelo em alvoroço, uma massa de ondas e enleios loiros que se recusam a caír sedosamente optando por cascatear selváticamente por cima dos meus ombros. Ainda não me maquilhei, e se dirigir o olhar para baixo olho directamente para dentro de uma das famosas montras, na qual a luz neon vermelha ainda arde. Está uma prostituta lá dentro, vestida a rigor. Sapatos pretos de salto de agulha, cabelo liso, preto, pelo queixo. Tão perfeito que pode bem ser uma peruca. Um fatinho de latex, ligas e rendas que lhe apertam os seios voluminosos. Deve ser pouco mais velha que eu.
O que pensas, miúda? O que pensas dia 10 de Agosto, às 10 da manhã, quando os moradores da rua passam por ti sem olhar, com os sacos das compras pendurados no guiador da bicicleta e o jornal no cesto...? A rapariga encosta-se a um banco, e folheia uma revista. Escreve uma mensagem num pequeno telemóvel cor-de-rosa. Consigo seguir o trajecto rápido dos dedos dela, com as longas unhas de gel brancas, que percorrem o teclado. O que escreves, miúda? Envias mensagens para as tuas amigas? Ou para um namorado? Ele sabe onde trabalhas?
Sinto-me estranhamente Naïv. Em contraste absoluto com a rapariga no réd-do-chão do outro lado da rua. Seis metros físicos, mas por outro lado um milhão de quilómetros.
A miúda olha para cima, e os nossos olhares cruzam-se por alguns segundos. Ela não desolha, mas também não sorri, como as raparigas pelas quais passámos ontem à noite, que se metiam connosco por sermos um trio invulgar. Não sorri, e o olhar parece-me de ressentimento ligeiro, ou de desafio. Como se tivesse vontade de me perguntar o que é que eu lhe quero, e se não tenho nada melhor que fazer. Deixo caír a cortina, como que apanhada em flagrante. Não sei porque é que me sinto embaraçada, afinal, não sou eu que estou atrás de um vidro em roupas eróticas. Se eu quiser, hoje não me maquilho. Se eu quiser, hoje não sorrio a ninguém.
Acabou de entrar o Mr.X, e contra os meus princípios recém encontrados, sorrio-lhe.
Ele sorri também. Traz o cabelo comprido molhado, a escorrer água, e não está a pensar nada de mais profundo do que “Estamos atrasados!”.
Volto a abrir uma nesga de cortina, e espreito. A prostituta desapareceu.
*******
E estava quase no fim a nossa estadia nesta cidade orgulhosamente louca. Nesta cidade propositadamente louca, em que a loucura toma formas quase forçadas. Faltava nos somente ouvir as reclamações do dono do albergue, que nos pediu para não estendermos roupa à janela – sim, pode ser fumar ganzas mas não se pode estender uma camisa a secar – e comprar os bilhetes para Paris.
Na sala de espera da estação, com 70 números à nossa frente, encontrámos tempo para descansar, mas só de olhos abertos! Sim, as regras não se limitam à roupa à janela, uma megera cinquentona de olhar venenoso veio buzinar-nos aos ouvidos que o Mr.X não podia estar a dormir ali. Só nos deu vontade de responder uma data de coisas inapropriadas, como “Vá acordar aqueles bebés ali, então!”, “Mas só estou a descansar os olhos”, “Vá arranjar uma vida ou qualquer outra coisa que a preencha, piiiiii, piiiiii” mas contivemo-nos. Colocámos os meus óculos fantásticos no Mr.X, pois atrás deles ninguém saberia se ele dorme ou não, mas até tinhamos perdido o sono. Os meus óculos fantásticos são daquelas coisas que só se podem usar fora do nosso país natal, ou se nos chamarmos Luisa e não nos importarmos de as pessoas cortarem relações connosco.
São gigantes, uma paródia daqueles monstros que estão na moda, e que geralmente são usados por raparigas de cabelos escuros muito lisos, não sei porquê - dá me ideia que as loiras vão mais para os modelos ray-ban clássicos (melhor gosto, obviamente, harharhar) - e que fazem as donas parecer insectos estranhos, só que os meus são ainda maiores, e cor-de-rosa! Não é lindo?
Finalmente chegou a nossa vez, o número mudou, e nós erguemo-nos, cobrimos os 10 metros que nos separavam do guichet, e quando lá chegámos ouvimos “o número já mudou, não estavam cá, temos pena”. WTF??? Perdi a pachorra assim toda de uma vez, mas hoje era o dia mundial das prvalhonas, tinham nas soltado sobre o público geral, ou quê?? Rosnei ao Mr.Y que tratasse da coisa porque eu não iria conseguir manter a boa educação, e retirei-me, para ouvir: “Os comboios para Paris estão esgotados nos próximos 3 dias, azarinho, nunca lá chegarão”. Mesmo.
Kusjes,
Ms.Sophieskje
Cidade esta que está cheia de estereótipos. Talvez de todas as cidades que passámos aquela que mais se embrulha numa cobertura de conceitos pré-estabelecidos, de regras diferentes, de um ideal de mentes abertas que se reflecte em actos fechados e que acaba por reduzi-la a algo tão mais pequeno do que aquilo que podia ser. Amsterdam no fundo é Loret del Mar, mas à escala global, ehhhh, a puta da loucura, Se te lembras é porque não foste... Claro que por aí a capital dos Países Baixos também provocava um fascínio e uma curiosidade especial aos Misters, com destaque para o Mr.Y, que desde Roma que andava possesso com a ideia de vaguear por Amsterdão. Ele, e todos os outros milhares de putos que escolheram as férias grandes para fazer o interrail e que definiram esta cidade como a cidade onde quebrar as amarras e fazer tudo o que as mamãs não gostariam de vê-los fazer.
Significando isto que a cidade estava à pinha. Só no posto de turismo, que tinha um sistema de senhas de atendimento e 40 pessoas à nossa frente, demorámos mais de uma hora para obter um mapa e algumas informações sobre pousadas da juventude. Depois de pousadas a 10 euros em Praga e apartamentos à borla em Berlim, custava-nos acreditar que não se arranjava nada mais barato que 25 euros em dormitórios separados...Huh? Mas eu estou habituada a dormir com os meus meninos...coméquié? Foi quase como se me disessem que não posso levar o Winston para dentro de um hotel, uma pessoa habitua-se a certas rotinas, né?
Decidimos procurar nós mesmos, presencialmente, e seguindo uma lista que nos tinham facultado num gabinete de reserva e marcação de hostels e hotéis, onde uma senhora extremamente antipática me puxou as orelhas por nos atrevermos a existir ali neste mês. Seríamos nós estúpidos? Não víamos que a cidade estava cheia? Não percebiamos que ia ser caro? Isto quando eu nem sequer me tinha queixado de preços nenhuns, estava mesmo só a investigar. Às tantas desisti, e fomos até à rua, onde o Mr.Y teve um raro momento de determinação para resolução de problemas, voltando a entrar lá para dentro, onde tanto moeu a molécula à senhora que a fez telefonar para todos os sítios na lista e fora dela a pedir informações detalhadas. Pelo que ele diz limitou-se a olhar para ela, responder “okay” a todas as reclamações e a insistir “please phone”. Acho que ela só não o matou com um clog bem assente no crâneo porque havia demasiadas testemunhas.
Daí seguimos para o hostel mais barato que nos tinham indicado, mas fomos apanhados, antes de lá chegarmos, por um rapaz à porta de um minimercado, que nos perguntou se procurávamos casa. O pai dele era dono de um pequeno albergue ali mesmo na esquina, e acabámos por ficar num apartamento engraçado, no primeiro andar, com sala com uma cama e um sofá, cozinha equipada, casa de banho e quarto com duas camas. Tudo muito limpo e bem-arranjado, e pouco mais caro que o hostel de dormitórios separados, este seria o nosso lar durante os próximos dias. Atirámos as coisas para lá e fomos comer umas massas ao restaurante italiano duas casas abaixo, rezando para que não houvesse uma especialidade holandesa chamada servitje e copertaaskje que acrescentasse 15 euros aos preços referidos no menu...
E lá fomos nós para as ruas destinadas aos turistas, ver quais eram os items mais comprados aqui nesta cidade. Depressa confirmámos que vivia tudo à luz de ganzas e sexo, basicamente. Se não era alusivo a drogas leves, era alusivo ao redlight district e às prostitutas, ou ainda, no melhor dos casos, como tornar namoradas em coisas amordaçadas, vestidas de latex e com artefactos curiosos enfiados em todo e qualquer orifício corporal. Bem me parece que numa das incontáveis sex-shops até um vibrador auricular vi... Consolava-me não estar ali com crianças pequenas, teria sido mais difícil caminhar, tendo de tapar os olhinhos do Winston a cada dez passos ou gritando desesperadament: No, naughty boy, is not ball, is toy for willy, NO NO, for willy, not for Winston, deixa as pilinhas voadoras em paz, e venha com a mãe! JUNTO!! MrY, tira-lhe isso da boca! O quê? Não queres? What do you mean, é embaraçoso?? Não ves que eu não o posso largar que ele fura aquilo, e aquilo é insuflavel mas caro!
Mas estou a exagerar. Afinal também havia túlipas e clogs de madeira, coisas com moínhos e lojas de queijo que eram um pecado, davam colesterol só de olhar. Agora que as drogas leves eram de longe o campo mais produtivo a nível de objectos vendíveis, é uma verdade. Há lojas de sementes, com catálogos de inúmeras espécies de plantas com nomes como Super Skunk, Shiva Shanti, White Widow, Afghan Kush, Hollands Hope, Cali Orange Bud, etc, etc, são inúmeras e têm preços muito diferentes, no caso de se querer coprar as sementes, que são umas bolinhas de aspecto inofensivo, tipo comida para piriquitos. E, claro, também toda a parafernália que vai com a fase de crescimento, desde estufas, até luzes e ventoinhas especiais, protector solar para as folhas, um pentezinho para as pentear depois do banho, redes de colheita, funis, grinders, champô antiparasitário, música ambiente com base reggae e medidores de THC. (não acreditem em tudo o que eu escrevo). Já para não falar em bolos, cervejas, roupas, preservativos...tudo hemp-based. E T-shirts (“Why drink and drive if you can smoke and fly?”), fitas para o cabelo, cinzeiros, placas, cuecas, brincos, malas, e tudo mais o que apresente uma superficie utilizável, decorados com a referida simbologia. Ao fm de algumas horas deixou de ter tanta piada.
E os famosos coffee shops, claro. Que maioritáriamente estão populados por putos turistas, do tipo wannabe rastas, que acham que acabaram de comprar o bilhete directamente para o departamento dos fixes e cromos da vida só porque estão pedrados que nem uma afegã lapidada deitados nas almofadas e pufs de um café em Amesterdão. Ride on baby, it doesn’t get any cooler than that!
Fomos passear um pouco pela cidade, por cima de tantas pontes e canais que o Mr.X afirmou que se o tivessem colocado ali, dizendo-lhe que era Veneza, ele teria acreditado. Depois vim a descobrir que ele não é o único e que até chamam a esta cidade a “Veneza do Norte”. Os canais, em neerlandês, chamam-se “Graacht”. Os quatro importantes canais do centro da cidade são Prinsengracht, Herengracht, Keizersgracht e Singel. Estavamos com sorte, pois o tempo estava misericordioso (ainda) e até nos providenciava uns minutos de sol, de quando em quando, que nos permitiram sentar na praça Dam a ouvir o espectáculo ao vivo de um rapaz com guitarra, que cantou alguns evergreens eternos como Mr.Jones dos Counting Crows e Wonderwall dos Oasis, que é sempre bom relembrar.
Esta praça é o centro e o coração de Amesterdão e foi, por exemplo, a área de recepção para Napoleão e as suas tropas durante o ano de 1808 na reconquista da cidade mas agora encontra-se dominado pela variante Red Light District de um obelisco, o por nós apelidado “Pichilisco”, o que deixa adivinhar a sua forma vagamente, não, minto: a sua forma descaradamente fálica. É uma coisa enorme e branca, que supostamente é um monumento de memória às vítimas da 2ª Guerra Mundial, mas na realidade só serve de encosto ao pessoal que está a enrolar canhões. E não tem legenda em inglês das inscrições, que é uma pena. Também se situam nesta praça o palácio real, Het Koninklijk Paleis.
À noite fomos então passear pelo Red Light District, a zona mais antiga da cidade, em neerlandês chamada De Wallen, Walletjes ou Rosse Buurt, onde já os estivadores, marinheiros e militares se dirigiam para aliviar o stress.
Esta é a area atribuida aos negócios do sexo, especialmente à prostituição, legalizada neste país, e tornou-se uma das principais atracções turísticas da cidade. De Wallen consiste numa rede de ruas, travessas, vielas e becos crivadinhos em algumas centenas de T0 com montras, a partir dos quais a meninas oferecem ou impingem os seus serviços a quem passa, característicamente iluminadas por uma luz vermelha. Para além da prostituição também se podem encontrar por lá inúmeras sex shops, teatros de sexo, peep shows, um museu do sexo, um museu de cannabis e os incontornáveis coffee shops.
Os Misters e eu andávamos de olhos arregalados, a apreciar tanta Sodoma e Gomorra ali mesmo a alcançe de 50 € por 15 minutos (não me perguntem como é que eu sei isso), ou quem sabe era só eu que me preocupava com a objectificação da mulher, acho que os misters só olhavam mesmo para as maminhas e rabiosques... que havia para todos os gostos, desde fadas loiras e lindas, às quais só apetecia perguntar se com uma carinha assim não queriam antes ser modelos, até às mamãs afro-descententes, que tinham todo o ar de conseguir sufocar um homem de várias maneiras e feitios. Até vi senhoras que não qualificavam como tal, pela existência de um pichilisco, vulgarmente conhecido como pene...
Inicialmente é divertido andar por lá, especialmente estando em minoria absoluta – por incrível que pareça apesar de ser quase património cultural universal, não se vêem ali na rua tantas mulheres como eu esperava – e acompanhada de dois rapazes, mas quando se vai prestando mais atenção aos comentários da multidão e de quem nos acompanha não deixa de ser um pouco bitter-sweet. Se eu já tinha reluctância quanto ao facebook, pelo seu cariz de mercado da carne, ali então estava no centro de uma exposição humana, nas montras de um talho gigante, onde os pedaços de carne feminina se alinham para a apreciação geral. Gostaria de desenvolver um projecto fotográfico que passaria por substituir as miúdas das montras por autênticos bocados de carne, tipo metade de um borrego, uma cabeça de porco, uma entremeada de vaca, mas mantendo todo o resto igual...
É estranho ver aquelas raparigas ali, a maior parte delas de uma categoria carnal acima da namorada média, de sorriso colado no rosto, a mostrarem o seu corpo da maneira mais lisonjeante que conseguem, e do lado de fora do vidro estão todo o tipo de gajos, muito poucos deles atraentes ou minimamente parecidos ao jovem Brad Pitt, a comentar que “não tem mamas”, “tem um cú de foca”, “não vale nada”, “só presta para a ***********”, em várias línguas e vários tons. Comentários de pessoas que na minha lista de 0-10 possívelmente não passariam do 1.5, se vamos mesmo fazer a avaliação objectiva de seres humanos baseando-nos para isso em atributos físicos. Sim, é normal, sim é de esperar. Sim, é o que elas pedem, ao trabalhar ali. Mas isso fá-lo correcto? Isso fá-lo agradável? Para mim não. Posso ser uma menina inocente, cunhada pela geração do Pretty Woman, mas acho que prefiro ficar assim.
No dia seguinte de manhã, tinhamos de fazer uma visita guiada, de autocarro, e o tempo agradável tinha-se esgotado. Chovia. Bom, de autocarro não faz mal. Muito abreviadamente, uma vez que tive queixas referentes à extensão cultural deste blog (seus incultivados! ;-)), passámos o t’Kromhout, o mais antigo estaleiro da cidade, onde depois da 2ªGuerra Mundial, cujos bombardeamentos levaram a uma escassez flagrante de casas, se construiram mais de 200 barcos-casa que navegam pelos rios e canais.
Vimos o primeiro moínho da nossa estadia na Holanda, que estava transformado em cervejaria, um sítio ao qual resolvemos voltar, e a meio da visita fomos elucidadados acerca da razão desta ser tão barata. Pois fiquem sabendo que quando as visitas de autocarro custam 10 euros não devem esperar muito. Esta vivia de um truque do qual já fui vítima na Irlanda, é que consiste num sistema de comissões atribuidas à companhia que faz a visita e que leva a que os turistas sejam conduzidos até vários locais com o intuito mal-disfarçado de nos fazer comprar coisas.
Neste caso tratava-se de uma fábrica de diamantes, o que assim à primeira vista não parecia mal, sabendo que a cidade tinha sido, na altura áurea da holanda, a Gouden Eeuw, no séc.XVII o centro financeiro e de produção de diamantes do mundo, mas que se revelou uma seca de marketing. A fábrica chama-se Gassan Diamonds, e vá, okay, aprendemos algumas coisas interessantes sobre diamantes... Por exemplo que durante o corte e a polição se perde 50 a 60% do diamante...e pudémos ver este processo, que só pode ser levado a cabo com ferramentas cobertas em azeite e pó e fragmentos de diamante, devido à dureza extrema do mineral. Também ficámos a saber que a qualidade do diamante se avalia consoante os 4 “C”s, carat, colour, clarity e cut, sendo que 1 carat são 0,2 gramas – quantos mais melhor! E que um minúsculo diamante (tamanho de um quarto de um bago de arroz) pode ser polido de forma a ter 57 faces, que é o chamado “Amsterdam cut”.
O pior foi a parte das vendas...foram nos mostrar joias e diamantes prontos, e para isso falta me definitivamente um cromossoma. Secaaaa! Secaaa! Não quero diamantes...por favor nunca me ofereçam um, acho-os pirosos e a relação beleza-preço está completamente desequilibrada! Finalmente tivemos a feliz ideia de saír e ir beber o nosso “free drink” e de provar uma coisa, não free, que se chama “Stroopwafel”, uma espécie de waffel estaladiço recheado com creme de caramelo, que foi assim uma revelação, naquele momento chuvoso, e acompanhado de chá com leite. Foi pena é ter os Misters colados à perna, ou melhor, à Stoopwafel, que nem dois passarinhos de bico aberto, pois reduziu em 2/3 a quantidade por mim consumida. Mais tarde verificámos que em Amsterdam existe um McFlurry de Stroopwaffel que vale a pena provar, o que não significa que tenhamos ido ao McDonald’s, livra.
Posto isto, e eliminados muitos pormenores, quando acabámos a visita queriamos ir aos sítios que tinhamos achado mais interessantes, mas chovia a potes. Não fazia mal, afinal eu tinha acabado de comprar um pequeno e detestável guarda-chuva, - cujo cognome a partir daqui será mesmo só O Detestável, - e os misters tinham impermeáveis. Fizémo-nos à estrada, subestimendo completamente o efeito demoralizador da chuva quando o detestável se dobra e os impermeáveis perdem o im.
Não fomos ver a Anne Frankhuis, a casa de Anne Frank, onde ela escreveu o seu diário, e que também serve de espaço de exposição para todo o tipo de assuntos relacionados com a perseguição dos judeus e discriminação racial, pois custava caro e havia uma fila de centenas de pessoas, fica para uma próxima. O mesmo digo sobre o Rijksmuseum e o Van Gogh museum.
Tirámos as fotos da praxe em frente ao Schreierstoren, uma torre cujo nome é traduzido como “torre do choro”, “Schrei” sendo um grito, ou gemido, uma tradução que é fundamentada com o facto de ser ali que as mulheres choravam as partidas dos maridos para o mar, mas que no entanto é incorrecta, uma vez que o nome original era Schrayershoucktoren, torre da esquina apertada, sendo o nome actual não mais que uma abreviatura. Pouco romântico, eu sei.
E chovia. Procurámos abrigo no estaleiro velho, onde o Mr.Y despejou, pela 3ªvez, a água que se lhe acumulava nas mangas e o Mr. X esperou pacientemente que eu lhe prendesse o cabelo ensopado com um gancho. “Devia-me rebolar nas poças para uniformizar as manchas” concluiu o Mr. Y com alguma secura, e olhando para a sua linda figura. Mais vale humor, que um tumor.
O moínho era longe, apesar de no quentinho do autocarro não o ter aparentado, mas tivemos oportunidade de observar a arquitectura holandesa em alguns bairros mais residenciais, as casas muito estreitas, tal como no nosso albergue, que tinha umas escadas de tal forma escarpadas que fazia de nós uma espécie de quadrúpedes arfantes, e isto ainda sem efeito de drogas ou outras substâncias. Mamãs, notem a formulação. É por estas características arquitectónicas que todas as casas são equipadas com uma roldana no topo, que serve para içar as mobílias para os andares de cima, de forma a entrarem pelas janelas. Curioso, heim?
A dada altura estavamos encharcados, já não era só molhados, era encharcados mesmo. A água tinha-nos subido até aos joelhos, pelas fibras das calças, as mãos do Mr. X estavam transparentes e gélidas, as do Mr.Y quentes na mesma – injusto – e eu acabei por pronunciar a frase mais improvável de toda a viagem, sentidamente: “Chega de monumentos. Vamos tomar banho e metemo-nos no coffee-shop mais próximo e só saímos de lá para ir às putas.” Quatro olhinhos luziram, levei palmadas fortíssimas nas costas, e fui arrastada em dirrecção a casa sob urros de “Tá dito, tá dito”.
******
São 10:00h da manhã e acabei de acordar no nosso pequeno apartamento num primeiro andar de uma casa estreita, em Amsterdam, mesmo no meio do redlight district. A cama fica ao mesmo nível que a janela, e se me ajoelhar consigo espreitar para a rua abaixo. Estou com o cabelo em alvoroço, uma massa de ondas e enleios loiros que se recusam a caír sedosamente optando por cascatear selváticamente por cima dos meus ombros. Ainda não me maquilhei, e se dirigir o olhar para baixo olho directamente para dentro de uma das famosas montras, na qual a luz neon vermelha ainda arde. Está uma prostituta lá dentro, vestida a rigor. Sapatos pretos de salto de agulha, cabelo liso, preto, pelo queixo. Tão perfeito que pode bem ser uma peruca. Um fatinho de latex, ligas e rendas que lhe apertam os seios voluminosos. Deve ser pouco mais velha que eu.
O que pensas, miúda? O que pensas dia 10 de Agosto, às 10 da manhã, quando os moradores da rua passam por ti sem olhar, com os sacos das compras pendurados no guiador da bicicleta e o jornal no cesto...? A rapariga encosta-se a um banco, e folheia uma revista. Escreve uma mensagem num pequeno telemóvel cor-de-rosa. Consigo seguir o trajecto rápido dos dedos dela, com as longas unhas de gel brancas, que percorrem o teclado. O que escreves, miúda? Envias mensagens para as tuas amigas? Ou para um namorado? Ele sabe onde trabalhas?
Sinto-me estranhamente Naïv. Em contraste absoluto com a rapariga no réd-do-chão do outro lado da rua. Seis metros físicos, mas por outro lado um milhão de quilómetros.
A miúda olha para cima, e os nossos olhares cruzam-se por alguns segundos. Ela não desolha, mas também não sorri, como as raparigas pelas quais passámos ontem à noite, que se metiam connosco por sermos um trio invulgar. Não sorri, e o olhar parece-me de ressentimento ligeiro, ou de desafio. Como se tivesse vontade de me perguntar o que é que eu lhe quero, e se não tenho nada melhor que fazer. Deixo caír a cortina, como que apanhada em flagrante. Não sei porque é que me sinto embaraçada, afinal, não sou eu que estou atrás de um vidro em roupas eróticas. Se eu quiser, hoje não me maquilho. Se eu quiser, hoje não sorrio a ninguém.
Acabou de entrar o Mr.X, e contra os meus princípios recém encontrados, sorrio-lhe.
Ele sorri também. Traz o cabelo comprido molhado, a escorrer água, e não está a pensar nada de mais profundo do que “Estamos atrasados!”.
Volto a abrir uma nesga de cortina, e espreito. A prostituta desapareceu.
*******
E estava quase no fim a nossa estadia nesta cidade orgulhosamente louca. Nesta cidade propositadamente louca, em que a loucura toma formas quase forçadas. Faltava nos somente ouvir as reclamações do dono do albergue, que nos pediu para não estendermos roupa à janela – sim, pode ser fumar ganzas mas não se pode estender uma camisa a secar – e comprar os bilhetes para Paris.
Na sala de espera da estação, com 70 números à nossa frente, encontrámos tempo para descansar, mas só de olhos abertos! Sim, as regras não se limitam à roupa à janela, uma megera cinquentona de olhar venenoso veio buzinar-nos aos ouvidos que o Mr.X não podia estar a dormir ali. Só nos deu vontade de responder uma data de coisas inapropriadas, como “Vá acordar aqueles bebés ali, então!”, “Mas só estou a descansar os olhos”, “Vá arranjar uma vida ou qualquer outra coisa que a preencha, piiiiii, piiiiii” mas contivemo-nos. Colocámos os meus óculos fantásticos no Mr.X, pois atrás deles ninguém saberia se ele dorme ou não, mas até tinhamos perdido o sono. Os meus óculos fantásticos são daquelas coisas que só se podem usar fora do nosso país natal, ou se nos chamarmos Luisa e não nos importarmos de as pessoas cortarem relações connosco.
São gigantes, uma paródia daqueles monstros que estão na moda, e que geralmente são usados por raparigas de cabelos escuros muito lisos, não sei porquê - dá me ideia que as loiras vão mais para os modelos ray-ban clássicos (melhor gosto, obviamente, harharhar) - e que fazem as donas parecer insectos estranhos, só que os meus são ainda maiores, e cor-de-rosa! Não é lindo?
Finalmente chegou a nossa vez, o número mudou, e nós erguemo-nos, cobrimos os 10 metros que nos separavam do guichet, e quando lá chegámos ouvimos “o número já mudou, não estavam cá, temos pena”. WTF??? Perdi a pachorra assim toda de uma vez, mas hoje era o dia mundial das prvalhonas, tinham nas soltado sobre o público geral, ou quê?? Rosnei ao Mr.Y que tratasse da coisa porque eu não iria conseguir manter a boa educação, e retirei-me, para ouvir: “Os comboios para Paris estão esgotados nos próximos 3 dias, azarinho, nunca lá chegarão”. Mesmo.
Kusjes,
Ms.Sophieskje
Beer Barraca em Berlim
Festa da cerveja...e...esperem, estou-me a lembrar do resto!
NEW*NEW*NEW*NEW ADICIONADO A 1 DE SETEMBRO DE 2010
Em Berlim tinhamos casa! Logo iriamos viver muito pró-P1, o que parecia bem, pois para Amesterdão já se previa a desgraça.
Ficámos em casa da minha madrinha, que nos distribuiu por um quarto sem colchão e uma sala com colchão.
Alegando questões de justiça (camas de campismo demoníacas anteriormente impingidas ao Mr.Y) este apoderou-se do colchão, recusando responsbilizar-se por quaisquer danos que o meu esqueleto e o do Mr.X pudessem inflingir ao soalho envernizado do apartamento da nossa anfitriã.
Soube bem voltar a estar numa casa com um duche bem limpo e sem 7 marmanjos a fazer bolhas de saliva em camas ao lado, e a minha madrinha até cozinhou pasta para nós...à meia noite! Estava deliciosa, tão deliciosa que tanto o filho da cozinheira como o Mr.X prometeram comer todos e quaisquer restos frios no dia seguinte. Pobre Mr.X! Em muito tinha ele subestimado as capacidades, a motivação, e especialmente a voracidade de miúdos de 18 anos, quando foi por ela, já nem o cheiro nas paredes do tacho se sentia. “O raio do puto varreu mesmo aquilo tudo”, gruniu ele, desiludido.
Mas bom interrailista não se deixa ir abaixo, e saímos para provar outras iguarias, especialmente as excelentes curry wust , que são umas salsichas como só os alemães sabem fazer, polvilhadas com caril e regadas com ketchup, parece uma combinação estranha, mas popularizou-se com uma velocidade estonteante, e hoje são daquelas coisas muito “berlinenses”. Alguns dos Misters (na realidade um deles, não era o X, mas não vou especificar mais) mostrou atitudes muito pouco másculas face ao picante do caril. Meniiiiiiino. (Vá, vinga-te no Purfácio, se és capaz!)
Claro que também havia que provar as famosas Bolas de Berlim, - “berlimból, berlimból, pagagueava o Mr.X - que em Berlim não têm o afixo “de Berlim”, nem têm açucar granulado por cima, nem doce de ovos por dentro. Sim, meus compatriotas, andamos a fazer tudo mal, e a “bolinha, bolinha, hácomcremisemcreme” que é anunciada nas nossas praias com um sotaque crescentemente brasileiro é uma aberração. É como...como...como fazer uma açorda de alho mas em vez de alho deitar-lhe amendoins e guarnecer com folhas de amoreira e um adicional bicho-da-seda de quando em quando. É uma ideia interessante, mas no sentido de interessante como um bebé com sete dedos dos pés e um bico. Isto é a minha opinião, opinião de uma pessoa alérgica à nossa doçaria conventual e a tudo que saiba declaradamente a gema de ovo. Se me querem afastar, é abanarem-me um búziozinho de ovos moles de Aveiro em frente ao nariz, sob ameaça de mo fazerem comer, e far-vos-ei uma demonstração de velocidade e agilidade inesperada.
As verdadeiras Berlimbóis são cobertas de glacé de açucar (açúcar em pó misturado com água ou rum, de maneira a ficar em creme que depois seca sob a forma de cobertura, com uma consistência semelhante à da cobertura de chocolate num Rim (bolo!). E por dentro têm doce de fruta. Tradicionalmente de ameixa, pela sua resistência ao calor, mas desde que inventaram os sacos pasteleiros com os quais recheiam as bolas depois de serem fritas em óleo, também, alternativamente, com doce de cereja ou morango. O que obviamente também é uma aberração. Já dizia um cota na praia da Falésia, com ar de asco: “Algumas das bolas daqueles brasileiros são injectadas!” (E na nossa cabeça formou-se uma imagem de uma bola inchada, tratada com esteróides e a custar a fechar a cobertura devido ao exagero de massa...)
Enfim, alguns gostaram, outros não, penso que é como a comida chinesa que comemos por cá, não tem nada a ver com a comida chinesa chinesa, e possívelmente dessa nem sequer gostaríamos.
Em Berlim, eu estava sem a pressão dos monumentos, pois já os conheço de ginjeira, e queria ir visitar uma amiga. Tentámos alguns monumentos logo no primeiro dia, mas chovia desagradávelmente, ao que desistimos às portas de Brandenburgo.
No fim de semana queríamos ir ver uma faceta de Berlim que eu considero um must see, que são as fantásticas feiras da ladra. Berlim tem feiras da ladra que trazem as lágrimas de vergonha aos olhos do nosso pequeno mercado de velharias em Lisboa, mas não é só a extensão, como a qualidade e todo o espírito envolvente. Eu queria ir a uma específica que fica na estação de metro Eberswalderstrasse, mas depois de uma aventura de uma hora e meia nos transportes públicos, e de sairmos de casa cedíssimo – acho que foi o dia depois de o Mr.Y me querer decapitar – chegámos lá para descobrir que eu, apesar autoctone e a rasar o omnisciente, tinha, horror dos horrores, errado: era aos Domingos!
Mas voltemos às minhas questões com o Mr.Y. É que quando eu acordo, acordo. Fico logo coerente, conversadora, a atirar para o barulhento e com uma boa disposição que é estranhamente irritante para os seres da estirpe do Mr.Y que acorda muito lenta e penosamente, de mau humor, querendo silêncio até depois do café. Not on my watch, Mister! Pelo que tive de ouvir uma frase que em si era inofensiva, mas num tom tão marcadamente venenoso que me gelou um bocadinho o tutano, se bem que não o paleio “Massss tu não sabesss falar baixo?” assim bem rangido entre dentes, com a entoação de “Pode ser a última coisa que fazes”.
Desculpa aí qualquer coisinha, mas o dia começa quando eu começo a falar, e nunca percebi porque é que as pessoas hão de preferir o silêncio se podem ouvir coisas interessantes da minha vida e do meu foro psicológico...não é? Mas depois de ter sido assim violentada verbalmente, nessa manhã fomos em silêncio pesado até...
... descobrirmos que havia uma festa da cerveja algures em Berlim, o que deu novo alento aos misters, e um propósito à minha pessoa. Isto porque me sentia um pouco mal por me ter enganado pela primeira vez na vida, foi como quando digo ao Winston “já vamos play frisbee” e me telefonam nesse momento a dizer que tenho de ir a correr para a universidade, e depois sinto que o tenho de compensar com natação nocturna na bica ou qualquer coisa.
Neste caso como não podia haver feira da ladra, que pelo menos houvesse cerveja. Nesse aspecto o homem vulgaris é muito previsível e mais fácil de contentar que o canis familiaris, não requer divertimentos intelectuais ao nível de uma sessão de clicker para aprender a dar a pata, umas cervejinhas servem. E assim que encontrámos a dita feira, os animos levantaram.
Era uma rua com cerca de 800m, com barraquinhas de um lado e de outro, e funcionava da seguinte forma: Comprava-se uma caneca – vários tamanhos à escolha – que após o evento seria altamente vendível no e-bay, e com essa canequeinha se fazia então a ronda, enchendo-a por 1.50€ com os vários tipos de cerveja que se desejava provar.
E sim, acho que a cerveja alemã é mais fraquinha que a portuguesa, mas em contrapartida há inúmeras qualidades, e como já cantava Mark Knopfler, “German beer is chemical free, whuddayeee, whuddayee” está sujeita a uma lei de pureza que previne que a ela sejam adicionados quaisquer tipos de aditivos. E ali ficámos até ao último momento possível, e por acaso foi o máximo.
Havia pelo menos 6 ou 7 palcos com música ao vivo, desde o folclore, tão insuportável ali como em quase todo o lado (menos quando mete gaitas de foles e homens maçudos em kilts, ou harpas e fadas irlandesas), até aos oldies maravilhosos. Demos particular atenção a um homem que tocava músicas como Sweet Home Alabama e Beatles com uma banda de marionetas muito gira.
Quanto à comida, ainda provámos um outro tipo de salsichas, estas da zona do mar do norte, chamadas “Wattwürmer”, minhocas do Watt. O Watt é a zona ribeirinha desse mar, bastante lodosa, e de uma extesão enorme devido às marés extremamente pronunciadas, e é também onde se encontram umas minhocas específicas. As salsichas pelo que penso não eram feitas mesmo de minhocas (pelo sim pelo não, não traduzi o nome aos misters), são da grossura de uma esferográfica e sabem a salame do Lidl. Como são picantes, “puxam”, como se diz em bom português, a cerveja o que é no interesse dos organizadores, pelo que o preço delas também é acessível. Elas têm uns 50 cms (sim, são mesmo estranhas) e custam 50 centimos. E eu a pensar que já não havia snacks a menos de um euro!
A parte difícil foi, mais uma vez, conseguir pastorear os meus amores para fora dali, mas tinhamos um compromisso, pois a minha madrinha, que é uma fixe e faz publicidade e public-relationcoiso para artistas e eventos culturais, tinha-nos arranjado bilhetes à borla para um espectáculo de variedades num teatro muito porreiro nos Hackische Höfe, o Chamäleon.
Desde dormir em bancos de parque até ir ao teatro com tratamento VIP, tivemos direito a tudo, nestes interrais. O espectáculo foi qualquer coisa de impressionante, eram 10 pessoas, 5 raparigas e 5 rapazes que faziam acrobacias com variados efeitos de palco – luzes, panos coloridos, sombras, andaimes, etc – ao som de música moderna, Muse, por exemplo.
Os misters ficaram doidos com as ginastas, e eu também pude lavar os olhos com os rapazinhos que subiam varões de metal com a ligeireza de osgas, ficando em posições extremamente favoráveis à análise isenta a puramente anatómica de bíceps, tríceps, peitorais e costas em trapézio. Não, não gostaria de andar com uma gajo que fisicamente é assim mundos mais atraente que eu, mas para ver de vez em quando é engraçado. As miúdas eram incríveis, muito expressivas, e a ginástica é daqueles desportos que se pode praticar sem correr o risco de entrar na classe de butch sem maminhas e com ombros de Conan the Barbarian. Das coisas mais impressionantes era ver aqueles actos de pura força, muitos deles, serem executados com uma tal elegancia e perfeição que parecia não custarem nada – quando as nódos negras escuríssimas no interior dos joelhos reportavam a dificuldade de agarrar um trapézio só com as pernas enquanto alguém se balançava agarrado às mãos dessa pessoa.
O final da noite foi a ver um espctáculo de um street-artist australiano, que das 80 pessoas que estavam a encher a praça lá teve de me escolher a mim para fazer de vítima, obviamente. Acho que me aguantei bem, graças a Deus não sofro de timidez e consigo entrar nestas coisas, dispensava era no final ele me pedir um beijo e depois de me estender a face virar-se de repente proporcionando-me a minha primeira e nojenta experiência de beijar um punk com muy poucos dentes na boca. Podia ele dar-se por feliz de não estar ali um respectivo ciumento, como ja os houve, senão acredito que se veria despojado de mais alguns dentes assim na hora. Foi a única altura em que perdi a lata e me vi obrigada a fazer uma espécie de dança de mãos agitadas, muito gay. E eu sou rapariga, pensava que nem dava para ser gay. Os misters riram a bom rir, especialmente quando um rapaz do público berrava insistentemente “Burn the hair, burn the hair” no meio do malabarismo com os pauzinhos em chama, isto só porque eu tinha avisado o maluco em boxers que me podia matar, mas que não me puxasse fogo ao cabelo!
No dia seguinte, Domingo, lá conseguimos apreciar o espírito da feira da ladra de Berlim, que eu perseguia.
É tudo muito relaxed e cheio de relva e árvores e barracas de salsichas e kebabs, pessoal sentado no chão com matilhas de cães e guitarras, tererés, cobertores, helicópteros telecomandados (sim, babes!), karaoke, bijutaria feita à mão e na hora por freaks biológicos...enfim, sinto que encontro a minha tribo.
Infelizmente não pudemos comprar muita coisa, mas arranjei uma mochila nova pela módica quantia de 7 euros, um livro de um dos meus autores preferidos (Noah Gordon), que me desiludiu amargamente e algumas roupas a 1 € BARGAIN!!! emaisumaspequenosidadesfiozinhoessencialetc. Mudando de assunto, não deixei os Misters continuarem a negociar e a ponderar levar um barco insuflável com um grande motor, (homens...) e posto isto o Mr.X nem umas barbatanas ou uma coleccção de selos comprou. P1, já sabem, né? O incrível é que naquelas feiras da ladra se compra mesmo tudo, até avózinhas que acidentalmente foram empacotadas juntamente com o suposto espólio, e algumas das quais em óptimas condições e ainda a cozinharem!
À página tantas lá abandonei os meus mininos com um mapa cheio de instruções e notas de rodapé de modo a conseguirem encontrar os vários monumentos. Ao que parece as minhas notas tinham tanto ou tão pouco de úteis que só serviram para os levar de volta à festa da cerveja, cujo conceito afirmaram não ter percebido bem, tendo por isso que reviver determinadamente a experiência. Ao fim de algum tempo de festa da cerveja, dei pelo Mr.X a dirigir-se a pessoas alemãs enunciando frases inteiras em alemão! “Ó Mr.X,” admirei-me eu “mas tu não falas alemão!” “Quero lá saber!” responde-me a criatura muito desembaraçadamente. Só me fez lembrar uma anedota: Um homem contar a um amigo como conseguiu fugir de um leão, no deserto, trepando para cima de uma árvore. Ao ser confrontado com as dúvidas do amigo, que argumanta que no deserto não há árvores, este responde “Naquela situação estava-me borrifando para isso!”
Tal não estava o Mr.X que as minhas amigas ao verem-no a distribuir extrovertidamente beijos portugueses acharam que ele era tal e qual o meu ex-respectivo...uma comparação tão desapropriada como hilariante para quem conhece os dois.
Alguns Döner Kebabs e mais algumas voltas pelo Alexanderplatz, com a conhecida torre “Fernsehturm” e a fonte de Neptuno depois, estavamos prontos para seguir para Amesterdão. E assim foi.
Küsse,
Ms. Sophiechen
NEW*NEW*NEW*NEW ADICIONADO A 1 DE SETEMBRO DE 2010
Em Berlim tinhamos casa! Logo iriamos viver muito pró-P1, o que parecia bem, pois para Amesterdão já se previa a desgraça.
Ficámos em casa da minha madrinha, que nos distribuiu por um quarto sem colchão e uma sala com colchão.
Alegando questões de justiça (camas de campismo demoníacas anteriormente impingidas ao Mr.Y) este apoderou-se do colchão, recusando responsbilizar-se por quaisquer danos que o meu esqueleto e o do Mr.X pudessem inflingir ao soalho envernizado do apartamento da nossa anfitriã.
Soube bem voltar a estar numa casa com um duche bem limpo e sem 7 marmanjos a fazer bolhas de saliva em camas ao lado, e a minha madrinha até cozinhou pasta para nós...à meia noite! Estava deliciosa, tão deliciosa que tanto o filho da cozinheira como o Mr.X prometeram comer todos e quaisquer restos frios no dia seguinte. Pobre Mr.X! Em muito tinha ele subestimado as capacidades, a motivação, e especialmente a voracidade de miúdos de 18 anos, quando foi por ela, já nem o cheiro nas paredes do tacho se sentia. “O raio do puto varreu mesmo aquilo tudo”, gruniu ele, desiludido.
Mas bom interrailista não se deixa ir abaixo, e saímos para provar outras iguarias, especialmente as excelentes curry wust , que são umas salsichas como só os alemães sabem fazer, polvilhadas com caril e regadas com ketchup, parece uma combinação estranha, mas popularizou-se com uma velocidade estonteante, e hoje são daquelas coisas muito “berlinenses”. Alguns dos Misters (na realidade um deles, não era o X, mas não vou especificar mais) mostrou atitudes muito pouco másculas face ao picante do caril. Meniiiiiiino. (Vá, vinga-te no Purfácio, se és capaz!)
Claro que também havia que provar as famosas Bolas de Berlim, - “berlimból, berlimból, pagagueava o Mr.X - que em Berlim não têm o afixo “de Berlim”, nem têm açucar granulado por cima, nem doce de ovos por dentro. Sim, meus compatriotas, andamos a fazer tudo mal, e a “bolinha, bolinha, hácomcremisemcreme” que é anunciada nas nossas praias com um sotaque crescentemente brasileiro é uma aberração. É como...como...como fazer uma açorda de alho mas em vez de alho deitar-lhe amendoins e guarnecer com folhas de amoreira e um adicional bicho-da-seda de quando em quando. É uma ideia interessante, mas no sentido de interessante como um bebé com sete dedos dos pés e um bico. Isto é a minha opinião, opinião de uma pessoa alérgica à nossa doçaria conventual e a tudo que saiba declaradamente a gema de ovo. Se me querem afastar, é abanarem-me um búziozinho de ovos moles de Aveiro em frente ao nariz, sob ameaça de mo fazerem comer, e far-vos-ei uma demonstração de velocidade e agilidade inesperada.
As verdadeiras Berlimbóis são cobertas de glacé de açucar (açúcar em pó misturado com água ou rum, de maneira a ficar em creme que depois seca sob a forma de cobertura, com uma consistência semelhante à da cobertura de chocolate num Rim (bolo!). E por dentro têm doce de fruta. Tradicionalmente de ameixa, pela sua resistência ao calor, mas desde que inventaram os sacos pasteleiros com os quais recheiam as bolas depois de serem fritas em óleo, também, alternativamente, com doce de cereja ou morango. O que obviamente também é uma aberração. Já dizia um cota na praia da Falésia, com ar de asco: “Algumas das bolas daqueles brasileiros são injectadas!” (E na nossa cabeça formou-se uma imagem de uma bola inchada, tratada com esteróides e a custar a fechar a cobertura devido ao exagero de massa...)
Enfim, alguns gostaram, outros não, penso que é como a comida chinesa que comemos por cá, não tem nada a ver com a comida chinesa chinesa, e possívelmente dessa nem sequer gostaríamos.
Em Berlim, eu estava sem a pressão dos monumentos, pois já os conheço de ginjeira, e queria ir visitar uma amiga. Tentámos alguns monumentos logo no primeiro dia, mas chovia desagradávelmente, ao que desistimos às portas de Brandenburgo.
No fim de semana queríamos ir ver uma faceta de Berlim que eu considero um must see, que são as fantásticas feiras da ladra. Berlim tem feiras da ladra que trazem as lágrimas de vergonha aos olhos do nosso pequeno mercado de velharias em Lisboa, mas não é só a extensão, como a qualidade e todo o espírito envolvente. Eu queria ir a uma específica que fica na estação de metro Eberswalderstrasse, mas depois de uma aventura de uma hora e meia nos transportes públicos, e de sairmos de casa cedíssimo – acho que foi o dia depois de o Mr.Y me querer decapitar – chegámos lá para descobrir que eu, apesar autoctone e a rasar o omnisciente, tinha, horror dos horrores, errado: era aos Domingos!
Mas voltemos às minhas questões com o Mr.Y. É que quando eu acordo, acordo. Fico logo coerente, conversadora, a atirar para o barulhento e com uma boa disposição que é estranhamente irritante para os seres da estirpe do Mr.Y que acorda muito lenta e penosamente, de mau humor, querendo silêncio até depois do café. Not on my watch, Mister! Pelo que tive de ouvir uma frase que em si era inofensiva, mas num tom tão marcadamente venenoso que me gelou um bocadinho o tutano, se bem que não o paleio “Massss tu não sabesss falar baixo?” assim bem rangido entre dentes, com a entoação de “Pode ser a última coisa que fazes”.
Desculpa aí qualquer coisinha, mas o dia começa quando eu começo a falar, e nunca percebi porque é que as pessoas hão de preferir o silêncio se podem ouvir coisas interessantes da minha vida e do meu foro psicológico...não é? Mas depois de ter sido assim violentada verbalmente, nessa manhã fomos em silêncio pesado até...
... descobrirmos que havia uma festa da cerveja algures em Berlim, o que deu novo alento aos misters, e um propósito à minha pessoa. Isto porque me sentia um pouco mal por me ter enganado pela primeira vez na vida, foi como quando digo ao Winston “já vamos play frisbee” e me telefonam nesse momento a dizer que tenho de ir a correr para a universidade, e depois sinto que o tenho de compensar com natação nocturna na bica ou qualquer coisa.
Neste caso como não podia haver feira da ladra, que pelo menos houvesse cerveja. Nesse aspecto o homem vulgaris é muito previsível e mais fácil de contentar que o canis familiaris, não requer divertimentos intelectuais ao nível de uma sessão de clicker para aprender a dar a pata, umas cervejinhas servem. E assim que encontrámos a dita feira, os animos levantaram.
Era uma rua com cerca de 800m, com barraquinhas de um lado e de outro, e funcionava da seguinte forma: Comprava-se uma caneca – vários tamanhos à escolha – que após o evento seria altamente vendível no e-bay, e com essa canequeinha se fazia então a ronda, enchendo-a por 1.50€ com os vários tipos de cerveja que se desejava provar.
E sim, acho que a cerveja alemã é mais fraquinha que a portuguesa, mas em contrapartida há inúmeras qualidades, e como já cantava Mark Knopfler, “German beer is chemical free, whuddayeee, whuddayee” está sujeita a uma lei de pureza que previne que a ela sejam adicionados quaisquer tipos de aditivos. E ali ficámos até ao último momento possível, e por acaso foi o máximo.
Havia pelo menos 6 ou 7 palcos com música ao vivo, desde o folclore, tão insuportável ali como em quase todo o lado (menos quando mete gaitas de foles e homens maçudos em kilts, ou harpas e fadas irlandesas), até aos oldies maravilhosos. Demos particular atenção a um homem que tocava músicas como Sweet Home Alabama e Beatles com uma banda de marionetas muito gira.
Quanto à comida, ainda provámos um outro tipo de salsichas, estas da zona do mar do norte, chamadas “Wattwürmer”, minhocas do Watt. O Watt é a zona ribeirinha desse mar, bastante lodosa, e de uma extesão enorme devido às marés extremamente pronunciadas, e é também onde se encontram umas minhocas específicas. As salsichas pelo que penso não eram feitas mesmo de minhocas (pelo sim pelo não, não traduzi o nome aos misters), são da grossura de uma esferográfica e sabem a salame do Lidl. Como são picantes, “puxam”, como se diz em bom português, a cerveja o que é no interesse dos organizadores, pelo que o preço delas também é acessível. Elas têm uns 50 cms (sim, são mesmo estranhas) e custam 50 centimos. E eu a pensar que já não havia snacks a menos de um euro!
A parte difícil foi, mais uma vez, conseguir pastorear os meus amores para fora dali, mas tinhamos um compromisso, pois a minha madrinha, que é uma fixe e faz publicidade e public-relationcoiso para artistas e eventos culturais, tinha-nos arranjado bilhetes à borla para um espectáculo de variedades num teatro muito porreiro nos Hackische Höfe, o Chamäleon.
Desde dormir em bancos de parque até ir ao teatro com tratamento VIP, tivemos direito a tudo, nestes interrais. O espectáculo foi qualquer coisa de impressionante, eram 10 pessoas, 5 raparigas e 5 rapazes que faziam acrobacias com variados efeitos de palco – luzes, panos coloridos, sombras, andaimes, etc – ao som de música moderna, Muse, por exemplo.
Os misters ficaram doidos com as ginastas, e eu também pude lavar os olhos com os rapazinhos que subiam varões de metal com a ligeireza de osgas, ficando em posições extremamente favoráveis à análise isenta a puramente anatómica de bíceps, tríceps, peitorais e costas em trapézio. Não, não gostaria de andar com uma gajo que fisicamente é assim mundos mais atraente que eu, mas para ver de vez em quando é engraçado. As miúdas eram incríveis, muito expressivas, e a ginástica é daqueles desportos que se pode praticar sem correr o risco de entrar na classe de butch sem maminhas e com ombros de Conan the Barbarian. Das coisas mais impressionantes era ver aqueles actos de pura força, muitos deles, serem executados com uma tal elegancia e perfeição que parecia não custarem nada – quando as nódos negras escuríssimas no interior dos joelhos reportavam a dificuldade de agarrar um trapézio só com as pernas enquanto alguém se balançava agarrado às mãos dessa pessoa.
O final da noite foi a ver um espctáculo de um street-artist australiano, que das 80 pessoas que estavam a encher a praça lá teve de me escolher a mim para fazer de vítima, obviamente. Acho que me aguantei bem, graças a Deus não sofro de timidez e consigo entrar nestas coisas, dispensava era no final ele me pedir um beijo e depois de me estender a face virar-se de repente proporcionando-me a minha primeira e nojenta experiência de beijar um punk com muy poucos dentes na boca. Podia ele dar-se por feliz de não estar ali um respectivo ciumento, como ja os houve, senão acredito que se veria despojado de mais alguns dentes assim na hora. Foi a única altura em que perdi a lata e me vi obrigada a fazer uma espécie de dança de mãos agitadas, muito gay. E eu sou rapariga, pensava que nem dava para ser gay. Os misters riram a bom rir, especialmente quando um rapaz do público berrava insistentemente “Burn the hair, burn the hair” no meio do malabarismo com os pauzinhos em chama, isto só porque eu tinha avisado o maluco em boxers que me podia matar, mas que não me puxasse fogo ao cabelo!
No dia seguinte, Domingo, lá conseguimos apreciar o espírito da feira da ladra de Berlim, que eu perseguia.
É tudo muito relaxed e cheio de relva e árvores e barracas de salsichas e kebabs, pessoal sentado no chão com matilhas de cães e guitarras, tererés, cobertores, helicópteros telecomandados (sim, babes!), karaoke, bijutaria feita à mão e na hora por freaks biológicos...enfim, sinto que encontro a minha tribo.
Infelizmente não pudemos comprar muita coisa, mas arranjei uma mochila nova pela módica quantia de 7 euros, um livro de um dos meus autores preferidos (Noah Gordon), que me desiludiu amargamente e algumas roupas a 1 € BARGAIN!!! emaisumaspequenosidadesfiozinhoessencialetc. Mudando de assunto, não deixei os Misters continuarem a negociar e a ponderar levar um barco insuflável com um grande motor, (homens...) e posto isto o Mr.X nem umas barbatanas ou uma coleccção de selos comprou. P1, já sabem, né? O incrível é que naquelas feiras da ladra se compra mesmo tudo, até avózinhas que acidentalmente foram empacotadas juntamente com o suposto espólio, e algumas das quais em óptimas condições e ainda a cozinharem!
À página tantas lá abandonei os meus mininos com um mapa cheio de instruções e notas de rodapé de modo a conseguirem encontrar os vários monumentos. Ao que parece as minhas notas tinham tanto ou tão pouco de úteis que só serviram para os levar de volta à festa da cerveja, cujo conceito afirmaram não ter percebido bem, tendo por isso que reviver determinadamente a experiência. Ao fim de algum tempo de festa da cerveja, dei pelo Mr.X a dirigir-se a pessoas alemãs enunciando frases inteiras em alemão! “Ó Mr.X,” admirei-me eu “mas tu não falas alemão!” “Quero lá saber!” responde-me a criatura muito desembaraçadamente. Só me fez lembrar uma anedota: Um homem contar a um amigo como conseguiu fugir de um leão, no deserto, trepando para cima de uma árvore. Ao ser confrontado com as dúvidas do amigo, que argumanta que no deserto não há árvores, este responde “Naquela situação estava-me borrifando para isso!”
Tal não estava o Mr.X que as minhas amigas ao verem-no a distribuir extrovertidamente beijos portugueses acharam que ele era tal e qual o meu ex-respectivo...uma comparação tão desapropriada como hilariante para quem conhece os dois.
Alguns Döner Kebabs e mais algumas voltas pelo Alexanderplatz, com a conhecida torre “Fernsehturm” e a fonte de Neptuno depois, estavamos prontos para seguir para Amesterdão. E assim foi.
Küsse,
Ms. Sophiechen
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