segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Gordura é Formosura e a Mulher Quer-se Como a Sardinha…

Pequenina e...prateada? Oleosa? Cheia de ómega 3? Surpreendentemente cara?

Tenho algumas amigas gorduchas. Rechonchudas. Curvilíneas. Ou simplesmente gordas, sim. Mas isso não é socialmente aceite dizer.

Toda a gente se pode queixar de estar com uns quilos a mais.  Há toda uma indústria por detrás desse problema, os linha zero, os light, os depurantes, os perdedores de volume, as dietas da couve, dos hidratos de carbono, das minhocas tailandesas... toda a gente é solidária, e ainda vão escrever blogs a reclamar!

Ah, e tal, os homens gostam é de chicha e curvas. OBRIGADA pela parte que me toca, sim?!

Ah pois é! Porque as magras também têm problemas! Eu por exemplo sou de genética nórdica, sou alta, esguia, com um pescoço de ave aquática e pernas que nunca mais acabam e não, não juntam em nenhuma parte do seu percurso. Se não comer como uma porca, duas vezes mais do que me apetece, fico sem maminhas e com ossinhos salientes na zona da clavícula. 

E aí é que é:
Ai Lu, estás tão magra...Eish, as tuas omoplatas, pareces um passarinho...Estás mesmo mais magra, não estás? Mas tá tudo bem? Não comes? Porque é que não engordas mais um bocadinho, estás mesmo magra demais...

E agora no inverno piora. Porque se o verão é das magras, uma vez que para ficar sem lombinhos extra num biquini é preciso estar magra mesmo, já no Inverno com as suas calças e mangas compridas vai recomeçar a Santa Inquisição: Estás muito mais magra não estás...? Não gosto de te ver assim...

E tenho vontade de responder com obscenidades. São 58 - 60 kgs. Há 12 anos. E não, não gosto de ter omoplatas que parecem asas de anjo, não acho lindo. Ah, e o meu cão está mais magro também. Ou mais gordo. Ou lá o que é.


Não sei se isto é um hábito português, mas por acaso acho que aqui em terras lusas é mesmo muito comum, e no meio rural mais ainda. Deixem as pessoas da mão. Estão mais magras, estão mais gordas, porque é que isso tem de ser sempre assunto de conversa? 

Olha, tu estás mais aborrecido! "Deslarguem-me". Não ´tou magra nem gorda, ´tou mesmo boa, disse-mo a minha mãezinha, e ela sabe!

sábado, 26 de outubro de 2013

Tudo uma questão de influência ou: Attention-whoring deluxe

É uma daquelas verdades universais que o poder é algo vastamente ambicionado. Seja o poder na sua concepção mais política ou económica, ou na sua concepção mais lata e mais subtil, no seio de uma família, numa relação, numa situação específica do quotidiano.  Nem que seja com o raio do pastor alemão... (daí terem tanto sucesso as teorias da dominância, que nos querem por força estabelecer como líder da matilha, uma espécie de super-lobo, e daí acabarem tantos cães no canil porque o pater-famiglia afirma que “cão meu não me rosna” e o cão ainda assim não parou de rosnar.).

Todos gostamos de “ficar por cima”, mesmo que nos custe a admitir, mesmo que o mascaremos com uma boa camada de humildade, e ninguém gosta de sentir que é irrelevante, impotente, e que a sua opinião não conta para nada – não é por nada que o 112 recebe inúmeras chamadas falsas por dia, ou que há fogos postos só para a TV aparecer em Buraco da Toupeira de Baixo, ou em São João dos Cucos Brejeiros, ou onde Judas perdeu as botas.

Mas se há os “bosses” inveterados, que querem, podem e mandam e isso é um dado adquirido, há também N (ler “n”, aqui, como qualquer número natural entre 1 e + infinito) variações de pressões bem mais subtis e até mesmo inconscientes. A dor de cabeça. A vontade de fazer xixi. Manifestações físicas que podem ser usadas como ferramentas para manipular (ou xixipular) o ambiente que nos rodeia. Porque ninguém tem culpa de ter dores de cabeça ou de ter xixi, e não é socialmente aceite acusar alguém de estar doente e com isso arruinar o plano A, B ou C! Ou de se despistar na estrada, num dia de chuva...

Fisicamente, acho que estamos muito mais poderosos do que em alguma outra altura da história da humanidade. Claro que com isto não quero dizer que sou mais forte que os nossos antepassados símios, com 80kg e 1,5 metros de ombros peludos, que partiam fémures de alce com um machado de pedra, mas que, nos dias de hoje, a mulher de 50kg tem ao seu dispor um poder tecnológico tremendo, que a põe, a ela ou a qualquer contemporâneo, numa posição mortífera.

Já pensaram a facilidade com que poderíamos, se nos desse o bom velho amok, por término às vidas de um monte de pessoas? Só o simples facto de que conduzirmos todos (ou quase todos -  já sei mamã, tu não participas nisso) carros que chegam facilmente aos 100 km/h (já sei, pessoal, há quem não tenha carro para mais de 80 km/h, mas também dá para o que eu quero explicar) é, no mínimo assustador.

Quando conduzimos num IP qualquer, entre aqui e Sines, por exemplo (ou pode ser entre Sines e aqui, também) a única coisa que se encontra entre nós e a luzinha ao fundo do túnel, as portas de S.Pedro, Valhalla, o outro lado do rio Lethe (com umas moedas enfiadas no globo ocular), enfim, o fim desta dimensão é mesmo o bom senso do condutor que vem de frente para nós.

Se pensarmos bem, this is madness!! Confiamos na estrada como não confiamos em mais lado nenhum (era mesmo eu que punha a minha vida que tanto estimo nas mãos da Dona Paula do 3ºEsq, que anda a tomar coisas para a depressão desde mil nove nove oito!) Mas na estrada ponho.

E quando tenho de esperar 45 minutos à chuva miudinha, na autoestrada, porque um génio qualquer quis tomar um atalho para o referido domicílio do cãozinho de três cabeças, com ambulâncias a zunirem pela berma, ocorre-me que possivelmente este é o dia de maior importância da pessoa que provocou isto tudo. Sim, provavelmente nunca na vida deste sujeito houve um dia em que uma acção dele parasse milhares de carros, impedisse reuniões, fizesse perder voos, agrilhetasse figuras públicas e zé ninguéns...


No trânsito, somos quase omnipotentes. Podemos morrer e matar. Ou podemos ficar parados durante horas a fio sem escapatória alguma. É lindo. E de pensar que houve alturas em que nos tínhamos que matar à sacholada...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Elogio da Loucura

Este vem a propósito de um post do 9gag que traçava uma relação entre a vida triste e deprimente no mundo real e a necessidade/vontade de nos refugiarmos em jogos de computador onde podemos ser os melhores e ter letras brilhantes no ecrã a dizer: Congratuations!!! Isto porque esse post tinha inúmeros comentários de pessoas que concordavam a 100% com isso, centenas de likes para alguém que dizia “That’s how I survived my shitty childhood”.

Há uma música que me dá que pensar bastantes vezes, e que transmite mesmo o que penso sobre isso... diz a letra:

I'm surprised/ that you've never been told before/That you're lovely/ and you're perfect,/ And that somebody wants you//

E no meu grupo de amigos há várias pessoas, de ambos os sexos, a quem eu gostava de cantar isto muito sentidamente.

Vivemos numa sociedade cruel não só para os cães, sobre os quais muito falo quando me dão trela ;-) mas também para os cachorrinhos interiores de cada um de nós, os nossos egozinhos frágeis, que tentam sobreviver, a grande custo, num mundo de reforço negativo, castigos, multas, necessidade de ser homemzinho, mulherzinha, grande, culto, crescido, interessante, desenvencilhado e sei lá mais o quê.

E se não formos? Se formos só frágeis e patetas, sem muita certeza de onde é que fica o Suriname e se se calhar é ao pé do Vietname, e com a sensação que todos os outros sabem o que andam aqui a fazer, e que a qualquer momento aquela pessoa que realmente interessa vai descobrir que afinal somos uma pequena fraude ignorante e peluda. Com tornozelos feios.

But are we?

Há alguns anos atrás, quando li um livro da Karen Pryor, sobre como o reforço positivo influencia o comportamento de qualquer ser vivo (até de uma ameba!), tomei uma resolução à qual me tento manter fiel: If it’s nice, say it twice! Se algo é bom, bonito, bem feito, simpático, tento dizê-lo à pessoa. Seja um colar novo, seja uma apresentação interessante, seja um gesto agradável e charmoso.

E chego à conclusão que lamentavelmente as pessoas não estão preparadas para ouvir um elogio. Algo tão simples quanto “Oh, isso está tão bem feito” suscita uma palete de comportamentos tão díspares quanto corar, negar, reduzir a acção a algo insignificante, fazer uma piada, ficar sem reacção ou até com um ar duvidoso... Sim, porque eu devo andar a inventar mentiras, não tenho mais nada que fazer.

É curioso. Fui às lágrimas com uma boa amiga, há dias, quando lhe disse, sentidamente, aquando de uma saída conjunta: “Cheiras muito bem”. A isto ela respondeu-me com uma velocidade incrível: “Meh, não é nada, é só o meu perfume barato que é uma imitação do Gucci, comprei nos chineses por 3 euros”

Quê?! Mas eu perguntei alguma coisa? Chiça... Ali fiquei a saber que o perfume é “barato”, “imitação”, “comprado nos chineses” e que de resto devo ser idiota... sim, porque a não-aceitação de um elogio sentido é quase um atestado de burrice à pessoa que o faz: estou então completamente enganada, não cheira bem, não está bom, não é bonito nem atraente, e eu é que sou um freak do bosque por achar isso.

Pessoas, podem-me dar direito à opinião? Tudo bem que é sempre uma tentativa de modéstia, que é bonito, e que também salvaguarda o dito ego, que é um cachorrinho que está sempre à espera que a outra pessoa de repente aponte o dedo e diga: HAHAHA, NÃO, IDIOTA! ACREDITASTE?! CLARO QUE ÉS UM FALHANÇO!

Mas eu não vou dizer nem pensar isso. Gosto de cachorrinhos, e gosto de pessoas, e tento não magoar ninguém de propósito (já basta quando ando a rinocerontar e provoco danos colaterais). Podem honestamente sorrir-me de volta e dizer “obrigado/a”, porque sim, faz bem ouvir que somos bons. E somos. Numas alturas mais, noutras menos, mas em muitos momentos estamos a ser muito fixes, e temos o direito de ouvir isso e de acreditar nisso.

Porque é que será tão mais fácil acreditar nas coisas más que nas coisas boas? Porque é que um comentário leviano sobre um qualquer aspecto físico ou psicológico tem a capacidade de nos destroçar, quando são precisos doses copiosas de elogios até que acreditemos um bocadinho?

Todo o ego é frágil, até o daquela pessoa que parece estar no topo do mundo, e todo o ego precisa de um miminho. Já deu um abracinho ao seu, hoje?



sábado, 2 de março de 2013

My Best Human Boy


Aquela cor de cabelo à qual dou por mim a chamar loiro-cascais, porque parece ser uma mutação genética muito frequente na linha de Cascais, com maior taxa de incidência quanto mais nos aproximamos do Guincho e da Quinta da Marinha... Um castanho-claro de quem foi muito loiro em criança, e que agora mantém umas pontas mais claras porque tem o privilégio de poder passar muitas horas ao ar livre a surfar, a andar de bicicleta, a voar kites ou sei lá mais o que os putos ricos e desocupados fazem durante as tardes de verão intermináveis quando as vivendas são coladas às dunas...

Aquele castanho-claro que outrora foi mesmo loiro, e que, somehow, o continua a ser. Que vem com uns olhos cor de mar, entre o verde e o azul, dependendo da luz e do polo, ou com um pouco mais azar, e como no teu caso, com um castanho avelã. Olhos de mel. Com pintinhas douradas. Um sorriso só com meia-boca. E com esse sorriso vem uma saudade enorme de qualquer coisa, qualquer coisa que nem sei bem definir, qualquer coisa que não sei se já tive, se existe, ou se é história de livros.

Sabor a sal e a calippos de morango, que eu detesto mas tu adoras – não podes ser perfeito! - cheiro a cera de prancha de surf e conversas sobre Eça de Queirós e estribos western... As madeixas suaves em contraste com as duas rastas mais ásperas, das quais eu só gosto porque são tuas, e porque gosto que sejas irreverente e tenhas caracóis e rastas e me digas não quando eu preciso.

Que me digas não quando preciso e sim quando mereço, e que me abraces nas dunas e discutas se as três marias são as três marias ou talvez as sofias de ante-ontem. Porque não quero ter sempre razão.

Não tens uma carrinha pão-de-forma – lá está, não podes ser perfeito – mas quando perdemos as chaves do teu carro sem nome na areia e rimos que nem perdidos porque não as encontramos, e depois porque as encontramos, isso não importa. Be real.  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Andorra la Grande – Diário de uma Viagem

From Beja to Andorra, with Love 

Rendidos às evidências e às contas da Marina, partimos para a nossa aventura na neve numa fantástica carrinha de 9 lugares, sobre cuja marca não conseguiria adiantar nada, não fossem as exclamações indignadas de todos os seres masculinos e alguns femininos (uma Volkswagen, pá!!).

A rádio era fraquita, maioritariamente rádio rocha (kkrrrcchhhh- with youuuu...krc krc babeeeey...chchhhh), e um CD de Coldplay em loop, mas não havia mal, enquanto houvesse boa disposição, jogos de capitais e animais, chamuças, panados, empadas, pão, pupias e queijo da serra.

As chamuças, no entanto, não acharam aclamação geral, e é com elas que começo a compilação de frases do dia, anónimas: “Nã gosto disto, parece que tou a comer um marroquino!”

Entre tosses e ressonos mais ou menos elegantes, não conseguimos avistar “o povo que vive nas rochas, e que se chama trogloditas” que o nosso Gonçalo tanto nos prometeu, mas, felizes, avistavamos elevações cada vez mais escarpadas e algumas já cobertas de neve.

A partir de Andorra La Vella as coisas começaram inclusivé a complicar-se, tendo que ser adquiridas e postas nylons-para-a-neve custando caros dinheiros numa bomba da gasolina (não recomendo fazer isso). As raparigas colocaram os nylons nas rodas e os rapazes ficaram a ver (chiu, caluda, o diário é MEU eu é que mando!).

 Assim equipados, vencemos a montanha com apenas um patino, que deixou o nosso ToyPi (também conhecido por ToPin) profundamente apreensivo e de tal ordem cuidadoso que julgámos não chegar ao nosso destino, pois se ele fosse mais devagar do que aquilo que ia, era de marcha atrás. Mas em legitima defesa também tenho de dizer que foi com Beja-Power que subimos a rua do nosso apartamento, na qual já várias carrinhas semelhantes tinham fraquejado!

O nosso apartamento ficava localizado na faixa de Ganza (imaginem o porquê do nome), um corredor impestado (isto não é uma palavra, mas adequa-se) de suor e enfim... À chegada iniciou-se então a epopeia dos banhos: Toma Inês. Gonçalo apanha água fria. Restantes não tomam. 

Dia 1 da nossa missão

Levantámo-nos cedo, com a ideia de ir “num instante” buscar os materiais de ski e snowboard, mas tal não se verificou.

Horas mais tarde, lá seguimos para as pistas para uma primeira abordagem à posição em cunha, que o insecto da neve – uma espécie de metamorfose tipo Pokémon: ToyPi evolui para Snow Insect – rapidamente aprendeu.

A partir daí, não mais quis sair das pistas verdes, que descia em cunha perfeita, com os seus fantásticos óculos, e olhares desconfiados para as manchas de sangue, que conspurcavam a alvura virginal da neve, e testemunhavam o triste fim de outros da sua espécie. Por vezes verificava-se a remoção total das patas-da-neve, e a progressão do insecto na sua versão alentejana pelas pistas verdes. (Chiu, que o diário é meu e eu é que escolho a cor!).

Tomámos o nosso primeiro lanche de bocadillos (o que soa muito espanhol e exótico, mas são sandes da Pans) e perdemos o telemóvel da Alice e os cupões dos restantes bocadillos da Marina: Já prometia! Gonçalo o Vermelho presenteou a neve imaculada com os seus conteúdos gástricos, nada acudido pelo insecto da neve que se justificou com a seguinte frase do dia: “Não ajudo não, senão também me grégo!”.

Descobrimos que o Gin do Happy Hour custa 8€, e o serviço 3€. Not so Happy.

Daí nos dividimos em dois grupos, para compras e banhos. Gonçalo toma de água fria mais uma vez. O jantar foi o clássico muy estudantil: spaghetti carbonara, cuja elaboração foi dificultada pelo fogão eléctrico que tem um potencial de acção quase inutilizável, que implica 2 horas de preparação para aquecer.

O repórter fiel adormece de cansaço merecido (euzinha linda a dormir) e é alvejado com uma toalha no focinho, e consoante certas pessoas, emite sons vagamente humanos. (calúnia, na minha opinião).

A empiriquitação e as bebidas aprés ski no quarto demoram tanto tempo que alguns de nós adormecem maquilhados (não vou dizer nomes, mas não foi o António Triti).

Os sobreviventes deslocaram-se até um bar de gays, de seu nome Billboard, pleno de hobbits libidinosos. 

Dia 2 da nossa missão 

Levantamento tardio. Não sabíamos que o tempo iria piorar drasticamente, senão teríamos aproveitado mais.
Dois de nós foram os absolutos reis do ski, não vou dizer nomes, mas foram uns bosses e desceram uma pista preta com uma classe e estilo ainda por igualar!

Descobrimos que os andorrenses (o gentílico deste microestado também pode ser andorrano ou andorriano) nesta zona do país comem comida esquisita, há poucos congelados e frutas/legumes, e o nosso fogão não permite fritar carne.

Gonçalo perde a carteira toda, com 40€ e os documentos (se é para ser, é para ser) e somente os rapazes se sentem capazes de ir sair para ver mais rapazes, na noite de Pas de la Casa.

Dia 3 da nossa missão 

Os Antónios manifestam grande dificuldade em acordar. Creio que voaram acusações graves do género de “vocês são extremamente maçadoras” e outras mentiras.

Dores de garganta e tosse mais ou menos generalizada, com excepção do suricata carraceiro, que é fininho, mas nada lhe pega.

Estava algum nevão, e os óculos embaciavam nojentamente. Levámos ao cabo uma busca infrutífera pela carteira perdida, tentámo-nos consolar com o jogo PT-Equador (não funcionou, perdemos), e entre angulas falsas, outras latas, e torradas com azeite muito se conversou, sobre a benzoquice bejense e a chunguice algarvia. Um certo Dedão e outros “Bazoffes” fizeram aparições repetidas.

No Havana Club, no qual se encontravam muitos homens, tivemos o (des)prazer de observar um casal de tendências pornográficas, destituído de vergonha, que de resto contribuiu para o gáudio do nosso Tritimix, como podemos confirmar através de inegável prova fotográfica.

Houve quem afirmasse que o Sr. Pinto fazia jus ao seu estilo de ski, e também bailava como um robocop. Abstenho-me desse assunto, até porque após beber um baileys comecei a achar que o material masculino no bar estava a ficar mais interessante, e antes de começar a apalpar algum dos nossos meninos, resumi-me à abstinência.
Outros não o fizeram, e uma personagem de t-shirt branca insistia na dança das mãos moles, enquanto nos presenteava com close-ups dos seus sovacos. Lherk.

Frase do dia: “Eu até há duas semanas podia dizer que nunca tinha andado à porrada. Mas não é que se meteram comigo e me deram uma punhada?!”

Dia 4 da nossa missão 

A comunicação com a faixa de Ganza revela que o tempo está pior mesmo.
Tempestades de neve que colam os passarinhos às vidraças.
Estradas cortadas.
Previsão: NEGRO.
Ponto positivo: encontrámos a carteira do Gonçalo, ele é realmente um lucky child.
Ponto assustador: Polícia afirma que aquela tarde é a nossa última chance de abandonarmos Pas de la Casa. Arrumações frenéticas, as ratazanas tentam abandonar o navio, mas: Loja de skis fechada.
RP da meganeve e senhora da recepção contradizem os polícias, afirmando que o melhor é ir no dia seguinte.
3 horas de escavações arqueológicas para desenterrar a carrinha – ou melhor, desennevar a carrinha – para a piça, passe a expressão. Custou especialmente à minha pessoa, uma vez que fiz a maior parte do trabalho junto da carrinha, sem nunca me deixar vencer pelo cansaço ou o frio, e após ter feito uma caminhada de extremos, à Bear Grylls, pelo nevão, em busca de alimento. (Chiu, que o diário é meu e eu é que mando).

As pás necessárias para a busca da carrinha perdida foram emprestadas a grande custo, sob entrega dos BIs e quase exigência de uma caução... Compra de correntes-da-neve a uma fração do custo dos nylons da gasolineira, gasto de um quarto de depósito para desatolar a fiel carrinha.

Arrumação variada de todo o material de ski e snowboard entre os cacifos, o quarto e a loja fechada, com várias partidas de mikado de bastões. Algumas pragas. Estalactites de ranho em diversas pencas, devido a temperaturas de -11 graus.

Frase do dia: “Já me peidei tantas vezes dentro destas calças que já me parece que cheiram mal cada vez que me mexo...”

Tentativa de redenção através de jantar fora. Fail épico. Fondue apresenta-se como um f*dão à moda europeia, como só me lembrava dos tempos do meu interrail, ascendendo à soma astronómica de 147.77€ por uns bocadinhos de vaca e um queijo com álcool etílico, o qual ninguém conseguiu consumir nem com a melhor das vontades e muito espírito aberto (palavra de honra que tentei). 12€ em Iceteas, e um atendimento antipático que parecia achar que atirávamos o pão ao chão de propósito.

Dia 5 da nossa missão 

(Não me perguntem qual é a missão, estava nisto à 5 dias e ainda não sabia. Acho que não concretizei.) 

Alvorada na ausência de electricidade devido à actividade de parasitas nocturnos que não se ralaram nada com as necessidades de sono dos “nosotros” e dos “ninhos pequenhos”.

Quando finalmente temos luz verde para descer a montanha, fazemo-lo com algum alívio, e, lamentavelmente, sem o tlm do Triti. Somos empatados horas a fio numa fila de cagalhões da pradaria, antes de finalmente chegar a Andorra la Vella.

Sobre as termas, poder-se-ia escrever um capítulo à parte, mas nada direi. De acordo com o Sr.Pinto, “What happens in Caldea, stays in Caldea”, mas o que é certo é que a metade do grupo que optou por ir às compras e não às termas (Lichia, o Suricata, Gonçalo o Vermelho a Marina-sem-alcunha-parva) o achou manifestamente mais bem-disposto após se demolhar nos vários pisos do “centro termolúdico más grande de Europa en la montana”.

Triti, em estado de pós relax termal apresenta uma condução mais perigosa, bate num pilar, atravessa-se numa rotunda (sob os urros de indignação do Gonçalo), e quase atropela um peão (sob os urros de indignação do insecto das termas).
É deposto na hora do seu cargo de condução, e armazenado no banco de trás.

Não consegui comprar torrão blando para ninguém – nem para mim, o que admitidamente me deixa mais triste – e descobri que sim, em Andorra, para além de ser um paraíso fiscal, se podem comprar Leathermans a 31.50€. Não vou é falar do tamanho deles, mas deixem-me dizer-vos que não davam para castrar um grilo. Rumamos a Portugal, sem ser revistados na fronteira...tshei, e só de pensar que podíamos ter ido cravados em volumes de tabaco, garrafas de álcoois e bubidas e caçadeiras ilegais e ilegalizáveis....*suspiro*...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Cheia de Penas me Deito?

Alguém me disse que a pena é um sentimento que detesta, que não quer sentir. Como se se tratasse de algo indigno, condescendente, sujo e miserável. Fiquei a pensar nisso.

Fui ver ao dicionário, e, uma vez que neste caso claramente não se trata daquela pena que tem uma haste queratinizada e cobre o corpo dos pássaros, escolhi estas definições:

pena |ê| 
(grego poinê, -ês) 
s. f.

2. Grande sofrimento psicológico. = DESGOSTO, DÓ, TRISTEZA
3. Sentimento provocado por sofrimento alheio. = COMPAIXÃO, DÓ, LÁSTIMA

Nada que não soubéssemos já, digo eu. Mas assim sendo, se a pena é aquela capacidade que temos de nos condoer com a situação alheia, não será ela também muitíssimo próxima da empatia?

Quem me ensinou grandes lições de empatia foi a minha mãe, que a cada vez que eu ou os meus irmãos voltávamos da escola, a contar alguma situação do quotidano cruel das crianças, a atitude parva de x, o desconhecimento hilariante de y, o erro idiota de z, nos respondia invariavelmente “Mas já pensaste que xyz não sabe? Que nunca ninguém lhe deve ter explicado, e que com certeza se ficou a sentir muito mal por vocês gozarem todos?”

E nós reagíamos com impaciência. Frustrados na nossa tentativa de provocar o riso com uma historieta lá da escola, e porque aos nossos olhos os colegas não podiam, de repente, assumir o papel de mártire: continuavam a ser os nossos colegas tolos... Eu reagia com um revirar de olhos e um “mã-ãe”, e ficava a pensar. E às vezes tinha pena. (E no dia a seguir tentava ser mais simpática, e a criatura em causa gozava com as minhas roupas alemãs, porque miúdos são miúdos...)

Mas lá está a pena. Não decadente e reles, como uma côdea de pão atirada de má vontade, por vergonha de não dar nada (e agora vou fazer um esforço por não dizer “dourada e quente de amor universal, senão podem me pôr no manicómio), mas de compreensão e carinho por outra criatura. “Before you judge someone, walk a mile in their shoes” - e sem julgar os sapatos, de preferência.

É que a falta de empatia é triste. E não é a boa educação adquirida que a compensa. Posso ser perfeitamente bem-educada, e continuar a ser muito pouco empática. É não perceber quando é que uma piada súbtil está a magoar, apesar de a pessoa se rir. É aquele momento de rispidez que não precisava ser público. É uma palavra ou um gesto leviano. Não precisa ser por mal, basta não... sentir empatia.

Com isto não quero dizer que devíamos andar cheios de lágrimas nos cantos dos olhos a oferecer paninhos quentes uns aos outros. Mas que se calhar ser amigo por vezes significa defender o outro mesmo quando sabemos que ele não tem razão.

Na minha opinião, a pena é um sentimento que nos faz humanos, no sentido mais belo da palavra. (Se é que ainda sobra algum sentido belo). A pena de hoje pode ser o carinho de amanhã, e a palha salvadora depois de amanhã. Não é por nascer de pena que um acto e menos valido. Já todos fomos, em alturas diferentes da nossa vida, destinatários e emissores de pena, nem sempre fundamentada, talvez, mas isso não nos faz desprezíveis ou fracos, mas sim importantes.

Pobre aquele que não tem ninguém que se condoa com ele. Há que saber é como materializá-la. Não queremos criar desgraçadinhos, e mais vale ensinar a pescar do que dar um peixe, mas ainda que isso seja verdade, há dias em que nada sabe melhor do que chegar a casa e ter um peixe na mesa – e logo podemos ir pescar no dia a seguir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Breves...

Aquele pequeno momento em que acordamos, e temos perfeita noção que daí a escassos segundos nos vamos recordar de qualquer coisa horrível, que está ali, mesmo à margem da consciência.

E enquanto ainda pairamos no limbo de doce oblivion, só nos ocorre: Me*da, não quero nada lembrar-me de... e ZAU! A porcaria que temíamos atinge-nos com toda a sua realidade nojenta, e já não dá para estar feliz e quentinha na cama.

Já há muito que não tinha um momento destes.